Uma nova experiência no Reino Unido está a virar o ensino de cabeça para baixo, em que vinte alunos do ensino secundário no David Game College de Londres, vão passar o ano letivo numa sala de aula sem professores a aprender através de uma plataforma de inteligência artificial (IA), as disciplinas de matemática, inglês, ciências da computação e geografia.

A ideia é que a IA identifique os pontos fortes e fracos de cada aluno e adapte as lições em tempo real, personalizando o ritmo e o conteúdo para cada um deles.

Para alguns, esta abordagem promete revolucionar a educação, dando aos alunos um acompanhamento meticuloso e ajustado às suas necessidades. Contudo, o futuro sem professores traz consigo uma série de questões e até preocupações. Os defensores desta inovação argumentam que a IA é precisa e imparcial, oferecendo uma personalização que é difícil de replicar com métodos tradicionais.

Por exemplo, um aluno que tenha dificuldades em matemática poderá praticar até alcançar o domínio, enquanto outro, com facilidade nessa área, avança para temas mais desafiantes e sem a limitação de um professor sobrecarregado, cada aluno irá progredir ao seu próprio ritmo.

No entanto, críticos desta mudança defendem que a educação é mais do que a soma de conhecimentos adquiridos e alertam que os alunos precisam de interação humana, como a empatia, o apoio e a orientação que só um professor pode dar.

Luís Vidigal

Por isso, esta escola inclui três orientadores de aprendizagem para ajudar a desenvolver competências mais “soft” que a IA pode ter dificuldades em abordar. Estes orientadores não ensinam disciplinas aos alunos, mas estimulam competências como falar em público e debater uns com os outros, para transformar jovens em adultos preparados para a vida real.

Afinal, uma sala de aula não é apenas um espaço de transmissão de informação, pois é também um ambiente onde se cultivam valores, onde os alunos aprendem a socializar, a debater, a competir e a lidar com erros e frustrações, que são competências fundamentais que uma IA não pode ensinar.

Este será o tema central da Conferência-Debate “Como repensar a Educação com a Inteligência Artificial?”, promovida pela APDSI em Lisboa, no próximo dia 22 de novembro, que visa explorar como os modelos clássicos podem coexistir com a educação digital.

O uso da IA na educação parece inevitável e pode de facto trazer benefícios reais em áreas como a personalização do ensino. Mas será que queremos um futuro onde a aprendizagem é exclusivamente conduzida por máquinas? Onde o toque humano, a empatia e o olhar atento de um professor são substituídos por algoritmos?

A tecnologia deve apoiar e complementar, mas nunca substituir o essencial da educação, que é a relação humana que transforma o conhecimento em crescimento pessoal e social, capaz de estimular uma “aprendizagem ao longo da vida” para além da escola.

Opinião de Luís Vidigal – Representante da sociedade civil na Rede Nacional de Administração Aberta, consultor internacional de e-Government, ativista cívico e ex-dirigente de topo em áreas tecnológicas e de modernização administrativa

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