É Verão e a motorizada ou a 4L de Joaquim Cardoso, sobem a rampa para a aldeia do Outeiro e quase sempre carregam ‘material’ de Alqueva. Quando descem, é até se perder de vista e a mor das vezes, por sorte, não param dentro de água – salvo seja. O seu condutor vai à procura de um bom lançamento.

Se bem calha acerta! E o segredo é a alma do ‘negócio’.
Depois, conta-nos essa aventura e mostra o pescado que há-de trazer aconchego à barriga, entre uma ‘léria’ e outra de conversa.

Do “caranguejo azul”, Cardoso dá fortes indícios de que poderá já habitar naquelas águas; o pescador só precisa de mais algum tempo e paciência.

  • “Hei-de trazê-los para cima!” – retorquiu.

São hiper agressivos e destroem redes dos pescadores, alimentam-se de outras espécies de pescado e habituaram-se à permanência em águas com alguma profundidade, mas mais quentes e doces; dizem os estudos que tal facto será fruto das alterações climáticas. Esta espécie de “bue crab”, nome dado ao “caranguejo azul” dos EUA, tornou-se quase endémica e a sua explosão demográfica já pode ter chegado às águas paradas da região Alentejo. Fomos saber opinião deste ‘expert‘ em pesca, com largos anos de prática e conhecimento.

“Se esta espécie de “caranguejo azul” sobe o rio e transpõe fronteiras físicas ou artificiais, isso ainda ninguém tem a certeza absoluta, agora que bem pode por cá andar, isso é uma possibilidade”, afirma Joaquim Cardoso, pescador lúdico de margem e exímio conhecedor das águas do antigo Guadiana corrente, agora travadas com a construção de Alqueva.

O roncar da ‘Sachs V5’ caminhos fora à beira margem, ali para os lados do Outeiro, concelho de Reguengos de Monsaraz, leva-o a sítios que são o segredo e a essência do sucesso nas “mãnhas” de agarrar toda a espécie de peixe, que só ele sabe, bem como tudo aquilo que das águas possa ser extraído.

“Não há dia que não tenha que ir dar uma voltinha!”, diz com satisfação este entendido nas artes da pesca, até porque “fiquei com o bichinho de ir espreitar o rio, desde gaiato”, seja verão ou inverno.

Joaquim Cardoso, já perdeu a conta a quantos exemplares de pescado conseguiu retirar daquelas águas, tantos quantas as pedras que lhe feriram os pés, os joelhos e as pernas e, vai dizendo que “no outro tempo, até na ‘pesca à lapa’ me aventurava – e não era dos piores a trazê-los cá para cima”.

Mas agora, anos passados, já de motorizada ou de Renault 4L (para acessos mais fáceis), o experiente pescador continua a ‘dar cartas’ e a fazer com que das águas do Grande Lago saiam os melhores peixes, “conforme dite a sorte do dia, que tal como na caça, – ‘um dia é do peixe; o outro é do pescador’” – vai avançando.

Joaquim Cardoso, acompanhado da inseparável cana de pesca e junto da sua companheira de aventuras – a velhinha 4L
que conhece os recantos dos melhores pesqueiros do Grande Lago.

“Não há goela de Alqueva, aqui na zona, deste e do lado de lá (o espanhol), que não tenha já percorrido”, diz o amante deste hobby, chegando a fazer quilómetros, em busca da sorte do dia, seja ele de madrugada até ao fim de tarde.

“Às vezes (poucas) sai um chibo à cena! – que é como quem diz, não se pesca nada e regressa-se de ‘mãos a abanar’. Mas, regra geral não me dou nada mal e, sempre se mata este vício”.

É dele o segredo do molho de limão e coentros que rega as afamadas achigãs grelhadas, apanhadas nas águas de Alqueva.

Quanto à possibilidade de o “caranguejo azul”, estar nas águas de Alqueva, Cardoso afiança novamente, “não tenho certezas absolutas, mas desconfio e, se ele – o crustáceo – já por cá estiver, eu hei-de o agarrar, tal como quando apareceram aqui os lagostins de água doce, que tirei quilos”.

Este novo crustáceo, ao que parece, tem sido descoberto fora da sua habitual zona de habitat, o que tem contribuído para o desenvolvimento, à posteriori, de uma população de dimensões gigantescas.
Apresenta um tom meio azulado nas suas patas, facto que contribuiu para o seu nome de batismo, o “caranguejo azul” (Callinectes sapidus) e tem como origem a costa Leste dos Estado Unidos, embora também possa apresentar, nalguns exemplares, uma tonalidade esverdeada.

Antes de chegar à mesa, há que ferver os crutáceos com mais algumas técnicas, que só o mestre pescador sabe.

A quantidade de exemplares de “blue crab” no Guadiana, sobretudo lá onde as águas doces e salgadas se confundem (onde ele é mais pescado) é muito variável, dependendo da temperatura das mesmas: quanto mais altas, maior será a abundância, apesar de não se tratar de uma espécie nativa de águas quentes. Quando o meio aquático apresenta temperaturas mais baixas, os espécimes entram em dormência, como que se de hibernação se tratasse. Permanecem nas profundezas imóveis e, como para os apanhar estes têm de estar ativos e entrar nas armadilhas por sua própria iniciativa, este é um dos fatores responsável pela captura menos produtiva.

Estes exemplares da espécie dos decápodes, ostentam como dimensões médias, uma carapaça a rondar os 20 e 30 centímetros de diâmetro muito forte, os seus olhos são pedunculados e as patas anteriores terminam em fortes pinças, cujo comprimento pode até atingir os 45 centímetros, até à sua ponta.
Comparativamente, o mesmo, geralmente é maior do que a vulgar sapateira e afigura-se da dimensão de uma santola.

O “caranguejo azul”, após a cozedura, perde o seu tom azulado e assemelha-se ao vulgar marisco de mar
– falta-lhe o sabor a sal – que sempre terá de ser retocado com bastante sal grosso.


A importância do valor gastronómico do “caranguejo azul” já chegou, inclusive, aos restaurantes de alta cozinha, os seus chefes sabem disso e já se ensaiam algumas experiências na alta gastronomia.

Por agora, Joaquim Cardoso, um pescador Alentejano, de tanto procurar saber mais sobre o novo tipo de marisco, que é tema de conversa, apresenta aqui alguns exemplares, que lhe foram oferecidos por um amigo, mas capturados por um ‘colega’ espanhol, que foi dizendo, no meio de risos:

“Estos vinieron con la marea; all de Mértola”.

Será?… – questiona-se a si mesmo; e também nós questionamos.

“Eu não me canso e vou atrás deles” – responde o ‘Carnacas’, que é alcunha da terra e, que todos já viram passar, estrada acima – estrada abaixo, vezes a fio, com o ‘estojo’ da pesca às costas.
Confecionados por este ‘mestre’ pescador, os ‘cascudos’ subiram, isso sim até à mesa e, sobre os quais diz: “que belos que eles são!”
Estava o petisco feito!

-”Este, já não faz mais mal às redes” – diz o Cardoso atrás de uma delas, erguendo um exemplar de “caranquejo azul”
já cozinhado por si e, ainda brinda a melhores pescarias, para ele e, para os amigos.

Pelo menos no prato já o “caranguejo azul” aparece no Alentejo, e “é carnudo e esbranquiçado, aveludado e macio ao mastigar” – adianta-se.
Sendo ainda uma incógnita, mas prestes a deixar de o ser, um dia saberemos, com exatidão, se este ‘bicharoco’ já nos faz companhia por aqui…. também nestas águas quentes, do maior lago artificial do Alentejo.


Sem andar para trás; por enquanto, são eles o alimento, quando encontrados em qualquer destas ou de outras paragens e, ainda fazem as delícias de quando “aqui se juntam apreciadores, pescadores e outros mentirosos” – que é o que dita o provérbio popular, inscrito num azulejo azul ocre, vulgarmente pendurado por cima do balcão das antigas tabernas e cafés, cá do sítio.
O certo é que, esta notícia – a que acaba de ler – mesmo esta, não faz jus ao dito popular e, damos garantia de que é de verdade!

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