por Margarida Nunes*, Ana Claro¥, Teresa Ferreira**

* Laboratório HERCULES, Universidade de Évora, mrmpn@uevora.pt
¥ CHAM – Centro de Humanidades, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade NOVA de Lisboa e Universidade dos Açores, aclaro@fcsh.unl.pt
** Departamento de Química & Bioquímica, Laboratório HERCULES, Universidade de Évora, tasf@uevora.pt

A escrita e o poder que esta conferiu ao Homem constituíram um marco de extrema importância na história da Humanidade. Porém, por motivos variados, desde a destruição de fontes históricas por ambições políticas ou religiosas, à sua perda por incúria ou pelo próprio envelhecimento natural, não é possível situar com precisão no tempo a invenção da escrita e as etapas que se seguiram. A escrita terá aparecido, possivelmente de modo independente, em quatro locais e momentos distintos: Mesopotâmia, Egito, China e América Central, sendo os sistemas sumério e egípcio os mais antigos.
Escrever exige utensílios e suportes e o Homem serviu-se de uma diversidade de materiais ao longo do tempo, para ambos. Na sua fase inicial, a escrita fazia-se por gravação de símbolos e carateres em pedra e, posteriormente, foram introduzidas as tabuletas em argila. Com a invenção do papiro, este tornou-se o suporte principal no Antigo Egito. Muito mais tarde, a Europa rendeu-se ao uso do pergaminho, de origem animal, sozinho ou a par com o papel, uma invenção proveniente da China que acabou por se impor definitivamente.

A invenção de um meio líquido para escrever, a chamada tinta, seguiu a invenção da escrita. Tornou-se necessário criar um meio fluído que pudesse ser usado com o pincel e o cálamo, um fragmento de cana com a extremidade cortada em bico, ambos antecessores da pena. Misturas de corantes naturais, também em uso na então incipiente arte de tingir têxteis, e de outros materiais naturais ou artificiais foram certamente bons candidatos. Em um dos papiros que constituem os tesouros arqueológicos do Antigo Egito e que datam de cerca de 2600 AEC pode ser encontrada a frase completa mais antiga de que se tem conhecimento, redigida neste tipo de suporte flexível e usando tinta. Estudos científicos recentes em fragmentos de manuscritos egípcios de um período muito mais tardio (ca. 200 AEC – 100 EC) confirmaram que a tinta de cor preta usada na sua redação foi produzida a partir de fuligem. Durante mais de 2000 anos, o preto foi obtido por mistura de carvão em pó ou fuligem com água, à qual se adicionava uma goma. O sudoeste da Ásia detinha técnicas de produção de tinta muito sofisticadas: a fuligem era preparada pela queima de óleo, alcatrão ou resina, sendo depois misturada com uma goma e mel e a mistura compactada em pequenos bolos que se podiam guardar. Quando chegasse o momento oportuno, bastava adicionar água. Tien-Lcheu, filósofo chinês que viveu cerca de 2600 anos antes da Era Comum, é considerado o criador da “tinta da Índia” mais frequentemente conhecida por “tinta da China”, obtida a partir de fuligem produzida pela queima de pinheiro e do óleo usado nas candeias e misturada com gelatina extraída da pele de animais. Esta tinta entrou em uso comum a partir de 1200 AEC.

A arte da escrita terá chegado aos territórios da Grécia Antiga por volta de 1500 AEC e, tal como a generalidade das artes, foi de avanço progressivo ao longo do Mediterrâneo. Entre alguns dos tratados e receituários de período muito posterior, que referem ingredientes e suas proporções para a preparação de tintas para escrita, estão De Materia Medica de Dioscorides (ca. 90-40 AEC) e Historia Naturalis de Plinius (ca. 23-79 EC), os quais fornecem informação sobre tintas em voga entre gregos e romanos que viveram no início da Era Comum. Nesses tempos, as tintas de carbono detinham a preferência dos que dominavam a arte da escrita pela sua boa aderência ao papiro, embora fraca ao pergaminho, o que poderá ter estado na raiz da sua gradual e paulatina substituição, inicialmente por outras tintas pouco duradouras e, a partir do século III da Era Comum, pela tinta ferrogálica, já conhecida no mundo romano, mas pouco utilizada para escrever.

As descrições mais antigas sobre a preparação de tinta ferrogálica são muito escassas e uma das poucas que se conhece pode ser encontrada no Papiro V de Leiden do séc. III, descoberto em Tebas, no Egito, durante o século XIX. Documentos de períodos posteriores igualmente importantes são Mappae Clavicula, uma valiosa fonte documental medieval que contém uma compilação de receitas de tintas e pigmentos de ca. 800 EC com acrescentos posteriores do século XI ao XII, e De diversis artibus, do monge beneditino Teófilo (séc. XI-XII), o único Tratado completo sobre Arte que nos chegou deste período e que inclui uma rigorosa descrição da tecnologia de produção medieval, de vitrais a cerâmica, ourivesaria, pigmentos e tintas.

Com o saque de Roma (410 EC) e a queda do Império Romano do Ocidente (476 EC), a arte da escrita sofreu um declínio dramático, ficando sobretudo associada aos espaços religiosos. No silêncio dos scriptoria, os monges mantiveram uma intensa atividade copista de livros manuscritos, principalmente para fins religiosos e medicinais e a tinta ferrogálica foi sendo cada vez mais utilizada. A partir da Baixa Idade Média, sobretudo a partir do século XII entrou em uso frequente, mas foi no século XV que começou a ser utilizada de forma regular até finais do século XIX. É, sem dúvida, a tinta mais importante do mundo ocidental. Inicialmente concentrada na Europa, foi depois levada ao Novo Mundo. De entre inumeráveis exemplos de documentos redigidos com tinta ferrogálica, podem referir-se alguns como o Codex Vercellensis (ca. 350 EC), provavelmente a tradução latina mais antiga dos Evangelhos que chegou até aos nossos dias e que representa certamente uma das primeiras utilizações desta tipologia de tinta no Ocidente. No contexto nacional e já na época moderna, temos como emblemático exemplo, o conjunto da documentação produzida pelo Tribunal do Santo Ofício composto por listas de autos da fé, cadernos de denúncias, correspondência com autoridades eclesiásticas, entre muitos outros.

Para preparar esta tinta recorria-se a três ingredientes fundamentais: nozes de galha (excrescência do carvalho causada pela ação de certos insetos) como fonte de taninos; sais metálicos com o nome generalista de vitríolo, que correspondia a sulfato de ferro impuro, e que podia ser usado sozinho ou em conjunto com outros tipos de vitríolo ricos em sulfato de cobre ou sulfato de zinco; e, por fim, uma goma, frequentemente, goma arábica. Estes ingredientes eram previamente moídos e misturados em água, seguindo procedimentos detalhadamente descritos, dando origem à tinta preta. Conhece-se uma panóplia de receitas que, para além dos ingredientes básicos referidos, podem incluir aditivos como açúcar, alúmen, casca de romã, vinagre, vinho, urina, entre outros, e que forneciam à tinta diferentes propriedades.

da ameaça à consequência – um património em risco


Dependendo da proporção de taninos e vitríolo, a tinta pode ter ao longo do tempo uma ação mais ou menos danosa sobre o suporte onde foi utilizada. A verdade é que apesar de já ser conhecida essa possibilidade, a tinta ferrogálica continuou a ser utilizada e, ao que parece, não teve o seu uso pautado em primeiro lugar por critérios de conservação. Atualmente, embora uma parte considerável do património escrito se encontre visivelmente afetada, muitas obras mantêm-se em excelente estado de conservação e os danos que possam apresentar parecem não ser originados pela ação desta tinta. Esta é uma das particularidades que faz da tinta ferrogálica um desafio para cientistas, conservadores e arquivistas.

Embora a degradação e fragilidade dos documentos por ação da tinta sejam consequência de um conjunto de fatores, a maioria dos estudos aponta a sua característica acídica como causa principal. Esta resulta de formulações com excesso de sais metálicos ou de substâncias tânicas. Outro fator que influencia a sua ação degradativa é o acondicionamento inadequado dos documentos que propicia a sua exposição a oscilações de temperatura e humidade. As tipologias de degradação incluem a alteração de cor da tinta e aparecimento de manchas no suporte de papel entre os danos menores e a fragilização do suporte até ao seu total destacamento e perda como danos mais gravosos. *1, 2

Apesar deste tema ser objeto de estudo sistemático nas últimas duas décadas, o(s) composto(s) responsável(is) pela cor da tinta e o processo que conduz à sua formação não estão completamente clarificados, bem como as propostas de tratamentos que pecam por não serem fáceis de pôr em prática e, muitas vezes, de ação duradoura. Diante da relevância que um incontável volume de obras redigidas com tinta ferrogálica tem para o Homem contemporâneo, na sua procura por desvendar o passado, uma equipa internacional que agrega investigadores de diferentes áreas do saber e de diferentes Universidades está a investigar a tinta ferrogálica, nas suas várias vertentes, e procura contribuir para a salvaguarda do nosso património. Assim nasceu o projeto IronIC.

IronIC – Desafios da tinta ferrogálica – História e Conservação de um património cultural em risco (do inglês,
Iron Gall Ink Challenges – History and Conservation of a disapearing Cultural Heritage)

O projeto IronIC pretende contribuir com soluções através de uma visão interdisciplinar. Foi proposto pelo CHAM – Centro de Humanidades, unidade de investigação interuniversitária vinculada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e à Universidade dos Açores (CHAM-NOVA FCSH) sendo parceiros o Laboratório HERCULES e o Centro Interdisciplinar de História, Cultura e Sociedades (CIDEHUS) ambos da Universidade de Évora, o Instituto de Nanociência e Materiais de Aragão (INMA) da Universidade de Zaragoza e o Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT). Os colegas do CHAM e do CIDEHUS têm a seu cargo a recolha e compilação de informação obtida em fontes documentais históricas, receituários e tratados que incluem documentos manuscritos nacionais, pertencentes a instituições como o ANTT, a Biblioteca Nacional de Portugal e a Biblioteca Pública de Évora, para o período compreendido entre os séculos XVI e XVIII. A par, no Laboratório HERCULES e no INMA desenvolvem-se os trabalhos de natureza laboratorial que incluem a caracterização química da tinta ferrogálica e suas alterações nos documentos provenientes das instituições referidas, reprodução de tintas a partir de algumas fontes históricas recolhidas e preparação de amostras envelhecidas artificialmente de modo acelerado que mimetizam a ação do tempo sobre as tintas e suportes onde são aplicadas, e seu estudo com recurso a um conjunto de técnicas analíticas de ponta. Está ainda prevista a síntese de compostos promissores, nanomateriais com propriedades anticorrosivas, que se espera que possam atenuar ou mesmo prevenir os efeitos nefastos da tinta, nomeadamente, a sua acidez, e contribuir para a consolidação dos suportes fragilizados. O projeto inclui ainda um objetivo instrumental – o “IronIC kit”. Uma ferramenta baseada na utilização destes nanomateriais que poderão ser aplicados com recurso a um pincel ou um spray, agilizando grandemente os atuais tratamentos de conservação.

Aqui bem se pode aplicar a metáfora popularizada por Newton de que, tal como um anão vê mais longe quando está nos ombros de um gigante, assim a investigação se faz sobre o conhecimento anterior. Muito caminho se percorreu, já outro tanto ainda falta, mas a cada pequeno passo a ciência avança.


*o projeto IronIC é financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (PTDC/ART-HIS/32327/2017).


Referências
Ainstworth, M., University of Toronto, Inks: their composition and manufacture, including methods of examination and a full list of English patents, London: C Griffin & Co., London (1980).

Carvalho, D.N. (1998). Forty Centuries of Ink. Perlego, https://www.perlego.com/book/1816438/forty-centuriesof-ink-pdf (Trabalho original publicado em 1998).

Christiansen, T.; Buti, D.; Dalby, K. N.; Lindelof, P. E.; Ryholt, K.; Vila, A., ‘Chemical characterization of black and red inks inscribed on ancient Egyptian papyri: The Tebtunis temple library’, Journal of Archaeological Science: Reports 14 (2017) 208-219.

Maurizio, A.; Agostino, A.; Boccaleri, E.; Garlanda, A., ‘Quality management and method Validation in EDXRF analysis’, X-Ray Spectrometry 36(1) (2008) 286–287.

Regulski, I., The Origins and Early Development of Writing in Egypt, Oxford Handbooks Online (2016).

*1) Fólios 152-153v do Códice 99 da coleção Manizola, Orthographia Practica de Varias Letras (1648), evidenciando grande fragilidade. © Laboratório HERCULES


*2) Imagens de microscopia ótica digital, obtidas com luz com incidência rasante, de um detalhe do fólio 21v do Códice 99 da coleção Manizola, Orthographia Practica de Varias Letras, evidenciando degradação do suporte de papel por ação da tinta ferrogálica. © Laboratório HERCULES

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