Do escrutínio democrático à ditadura digital

O governo eletrónico idealizado no Projeto 2025 de Donald Trump levanta questões fundamentais, tais como saber quem realmente se serve desta modernização digital, o cidadão comum ou um círculo restrito de elites políticas e tecnológicas? Sob o lema da “eficiência” e da “soberania digital”, o Projeto 2025 pode estar a preparar o caminho para uma aliança entre Trump e Elon Musk, com consequências preocupantes para a democracia americana.

O governo eletrónico promete transparência, simplicidade e acessibilidade na relação entre o cidadão e o Estado. Deveria facilitar o acesso à informação pública e assegurar que os serviços públicos sejam mais eficientes. No entanto, a versão de Trump parece mais voltada para concentrar poder em mãos já influentes.

O Projeto 2025, ao centralizar a infraestrutura digital, pode transformar-se numa ferramenta para proteger a narrativa oficial e controlar a disseminação de informação, enfraquecendo o escrutínio público. Trump, como perito em controlar narrativas e polarizar a opinião pública, poderá usar este sistema para consolidar o seu poder.

A digitalização manipulada de forma estratégica, pode ser uma arma eficaz para silenciar vozes críticas e reforçar agendas políticas em proveito próprio. É aqui que Elon Musk entra em cena. Musk, com a Starlink e a rede social X (antigo Twitter), não é apenas um magnata tecnológico, é um influenciador com capacidade de moldar o debate público. A sua proximidade a Trump, num contexto de infraestrutura digital centralizada, representa uma ameaça à neutralidade e à transparência que o governo eletrónico deveria promover.

Luís Vidigal

A ideia de Musk como uma ponte para a modernização digital esconde um risco, em que as infraestruturas sob o seu controlo abrangem desde comunicações em regiões rurais até redes sociais cruciais. Num cenário onde ele decide o que é verdadeiro ou falso e o que é prioritário na sua relação com o governo, o sistema torna-se vulnerável a conflitos de interesse. Em vez de promover uma infraestrutura segura e democrática, esta dependência em relação a Musk cria um ambiente de incerteza e risco, comprometendo a privacidade e a independência dos dados.

Pior ainda, a promessa de proteger a segurança nacional pode justificar práticas autoritárias de perseguição e vingança contra adversários políticos e económicos. A centralização defendida pelo Projeto 2025 ameaça limitar a colaboração com empresas independentes e dificultar o acesso à informação, o que enfraquece o papel de fiscalização e escrutínio. O governo eletrónico deixa de ser um instrumento de transparência e passa a ser um sistema de vigilância e controlo.

Será que o governo eletrónico dos EUA vai servir o cidadão ou vai apenas servir Trump e Musk? Sob esta aliança, a digitalização corre o risco de se tornar uma ferramenta para moldar a sociedade em benefício de interesses particulares, sacrificando os princípios democráticos em nome de uma falsa soberania digital. Será que os EUA vão seguir o exemplo da China, deixando de ser uma democracia, para se transformar numa ditadura digital?

Opinião de Luís Vidigal – Representante da sociedade civil na Rede Nacional de Administração Aberta, consultor internacional de e-Government, ativista cívico e ex-dirigente de topo em áreas tecnológicas e de modernização administrativa

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