OPINIÃO por João Palmeiro • Promotor e Divulgador Cultural

Contar a realidade — especialmente a realidade à margem — e dar espaço às vozes do invisível para melhor compreender a complexidade do presente e antecipar mudanças futuras: esta é a vocação do Festival de Cinema de Lucânia*, reafirmada ainda mais fortemente pela sua próxima 27.ª edição.

Mais uma vez, Pisticci** tornar-se-á uma Babilónia internacional, um lugar de encontro e diálogo entre diferentes culturas, línguas e visões, encontrando através do cinema uma síntese criativa e inclusiva.

O tema deste ano é “O Sentimento de Culpa”, um sentimento universal, seja a nível pessoal ou coletivo, que percorrerá todo o programa — do cinema às artes performativas — convidando-nos a questionar o nosso tempo, as suas responsabilidades e as suas contradições.

Uma novidade importante da edição de 2026 diz respeito à direção artística: como habitual, o festival será liderado por Rocco Calandriello, acompanhado pela cineasta Hana Makhmalbaf e, este ano, também pela atriz Marianna Fontana.

Após a jornada do Cine Passeggiate, organizado em colaboração com a FAI Basilicata, APT Basilicata, Lucana Film Commission e Slow Food, que envolveu centenas de participantes na descoberta do território local através do cinema, a pré-estreia do festival terá lugar no domingo, 2 de agosto, com o tradicional concerto ao nascer do sol na foz do rio Cavone, no Mar Jónico.

O evento contará com os artistas Liron Meyuhas (Israel) e Arezoo (Irão), oferecendo uma homenagem simbólica ao Mediterrâneo — uma encruzilhada geográfica, cultural e política que sempre esteve no centro da visão e programação do festival.

No dia 3 de agosto, em Matera, será apresentada a estreia mundial da performance ambulante “Os Grandes Funerais do Mediterrâneo”. O projeto é financiado pela Fundação Anna Lindh no âmbito da Capital Mediterrânica do Diálogo e da Cultura Matera 2026, com o patrocínio da Cidade de Matera e da Fundação Matera-Basilicata 2019.

É uma viagem narrativa pelo coração dos Sassi***, dedicada a Hassan Al-Wazzan (conhecido como Leo Africanus), Sayed Darwish e Samia Yusuf Omar, acompanhada por atuações musicais de Nancy Mounir (Egito), Reda Zine (Marrocos) e Rocco Mentissi.

No dia 4 de agosto, terá início outro momento chave desta edição: o programa internacional LFF OFF com o Festival de Cinema de Metro Manila, recebendo uma delegação institucional e cinematográfica das Filipinas. Para a ocasião, em Tolve, o premiado filme “I’m Perfect” — protagonizado por jovens atores com deficiência — será exibido na presença dos seus protagonistas.

Nesse mesmo dia será também dedicada à Rede Internacional São Roque, a primeira rede internacional de municípios dedicada a São Roque, simbolicamente proclamado Padroeiro do Cinema, com a participação das autoridades civis, religiosas e institucionais.
A iniciativa é organizada em colaboração com a Associação Musical e Cultural “Francesco Mentissi” – Tolve Band e sob o patrocínio da cidade de Tolve.

O programa do festival entrará na sua dimensão completa em Pisticci na quarta-feira, 5 de agosto, com o início da nova secção, “Escola do Festival”, dedicada ao mundo educativo e centrada no programa CIPS. Seguir-se-á a apresentação oficial do programa do festival, com um rico calendário de eventos e convidados, com a participação extraordinária de 45 cineastas em competição, selecionados entre mais de 3.500 obras submetidas e analisadas para as secções internacionais e nacionais.

A palestra de abertura contará com a participação da atriz Maria Chiara Giannetta, reconhecida como um testemunho de acessibilidade graças ao seu envolvimento na série televisiva Blanca.

De facto, o dia marcará o início do programa do festival dedicado à acessibilidade no setor audiovisual, incluindo workshops, audiodescrições, visitas culturais inclusivas e atividades destinadas a públicos invisuais ou com deficiência visual.

Entre os eventos especiais está a exibição de “Persepolis”, apresentada com convidados iranianos e numa versão audiodescrita promovida pela Artis para pessoas com deficiência visual. Seguir-se-á uma leitura da atriz ítalo-palestiniana Dalal Suleiman, acompanhada pela musicista egípcia Nancy Mounir.

Nos dias seguintes, terão encontros com, entre outros, o cineasta Alessandro Cassigoli, o realizador argelino Karim Traïdia, o ator Fortunato Cerlino e o cineasta Marco Tullio Giordana, que durante muitos anos optou por evitar passadeiras vermelhas, entrevistas e o mundo das celebridades.

A 6 de agosto, terá início o novo ciclo de encontros profissionais, a “Matinée Lucane”. Estes workshops são dedicados ao diálogo entre cinema, universidades e indústria e decorrão no prestigiado cenário do Museu de Negócios Essenza – Amaro Lucano 1894****.

Durante esta ocasião, será entregue a primeira edição do Prémio Nacional de Teses Universitárias sobre Cinema no Sul de Itália. A iniciativa é promovida em colaboração com as Comissões de Cinema de Basilicata, Puglia, Campânia e Calábria, juntamente com as Universidades de Basilicata, Salerno, Salento e Calábria.

A Matinée Lucane irá também acolher outros encontros profissionais, incluindo um focado nas políticas de desenvolvimento para o setor audiovisual, com a participação do Ministério da Cultura italiano e de Bruno Zambardino, Chefe de Assuntos da UE, Plano de Cinema para Escolas e Itália para Cinema, juntamente com representantes de instituições educativas.

Outro regresso importante será o Programa Secreto, uma secção em que dois filmes estrangeiros — ambos estreias europeias — selecionados pelo renomado cineasta iraniano Mohsen Makhmalbafsó serão revelados no momento da exibição, na presença dos próprios realizadores.

No dia 7 de agosto, terá lugar uma discussão internacional sobre o tema “O Sentimento de Culpa”, reunindo cineastas, jornalistas e intelectuais italianos e internacionais.

A reunião será moderada por Francesco Cancellato, Diretor do jornal online fanpage.it. Como parte do Book Corner, Cancellato irá também apresentar o seu mais recente livro, “Il Nemico dentro” (O Inimigo Interior), focado no caso Paragon, do qual o próprio autor foi vítima. Neste contexto, após uma longa viagem pelo Norte e Sul de Itália, o Sudário dei bambini palestinesi (Sudário das Crianças Palestinianas) chegará ao festival: um pano branco de 25 metros com os nomes de 18.457 jovens vítimas, tornando-se símbolo de dor, memória e um apelo à paz.

A iniciativa é concretizada em colaboração com o coletivo Carnaia for Peace. O Festival de Cinema Lucania é o único festival de cinema que acolhe uma paragem da jornada do Sudário, transformando o espaço público num espaço de reflexão e participação coletiva.

Um dos eventos mais aguardados desta edição, a 8 de agosto, será o fórum de produção entre Itália, Filipinas e Argélia, juntamente com a atribuição do Prémio Universal San Rocco – Padroeiro do Cinema ao cineasta Marco Tullio Giordana.

Nesta ocasião, o festival irá também exibir a sua obra-prima “Os Cem Degraus” (I Cento Passi). O prémio, uma obra original do mestre italiano Mimmo Paladino e entregue pessoalmente pelo artista, representa um reconhecimento único a nível mundial. É promovido pela comunidade internacional de São Roque, que reúne cidades italianas e internacionais em nome do santo padroeiro.

O Festival de Cinema de Lucânia 2026 terminará no domingo, 9 de agosto, com uma série de grandes atuações e eventos musicais.

Entre estes, será dada especial atenção ao espaço dedicado à Orquestra Juvenil Mediterrânica*****, que recebe 14 músicos do projeto Sound Passages de Lampedusa, e ao evocativo ritual coletivo “Os Grandes Funerais dos Calanchi”, dedicado a Pier Paolo Pasolini.

Esta ação teatral e musical de grande escala será acompanhada pela histórica Tolve Band e por algumas das vozes mais autoritárias do cinema e teatro italianos, incluindo a co-diretora artística Marianna Fontana.

“Os festivais devem continuar a contar a história do mundo antecipando mudanças geopolíticas”, explica o Diretor Artístico Rocco Calandriello, “porque conseguem perceber os sinais que vêm das margens do mundo, de lugares e pessoas que demasiadas vezes permanecem invisíveis.

Bastava experienciar o Festival de Cinema de Lucania e explorar o seu programa cinematográfico e cultural — que não é composto apenas por espetáculos ou eventos, mas por visões e linguagens em diálogo entre si — para compreender o que poderá acontecer nos próximos anos e interpretar o que está a acontecer hoje.

Isto é possível graças aos cineastas e autores que, através do seu trabalho e, por vezes, ao arriscar a sua própria liberdade ou até as suas vidas, continuam a contar a realidade sem compromissos e escolhem o Festival de Cinema de Lucânia como local para tal. Este ano, a sua presença será extraordinariamente significativa.

Temos, portanto, a responsabilidade de ouvir estas vozes e de lhes proporcionar um espaço. Um festival de cinema não pode permanecer neutro perante a complexidade do presente: deve assumir a responsabilidade cultural de acolher a dúvida, o diálogo e a dissidência.

O próprio cinema italiano deve redescobrir a coragem para ser audaz e recuperar o seu lugar no palco internacional; deve libertar-se de uma certa atitude autorreferencial e deixar de perseguir apenas lógicas comerciais ou orientadas pela produção.

O Festival de Cinema Lucania 2026 confirma assim o seu papel como um lugar onde o cinema se torna uma ferramenta para compreender o presente, ligar culturas e dar visibilidade a histórias que muitas vezes permanecem por ouvir.

* Lucânia ou Basilicata, região do sul de Itália cuja principal cidade é Matera

** Pisticci, cidade italiana na Basilicata com 18 mil habitantes

*** Sassi, complexo de habitações pre históricas esculpidas na rocha, em Matera, e reconhecido como património da Unesco.

**** Amaro Lucano é um licor italiano na categoria dos vermutes produzido na região Basilicata.

***** Orquestra Juvenil Mediterrânica, integra há 40 anos o festival Aixe n Provence e dedica se sobretudo ao multiculturalismo na bacia do Mediterrâneo.

Edição e adaptação de João Palmeiro com Luigi Paternoster/ECOCNews

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