OPINIÃO por João Palmeiro • Promotor e Divulgador Cultural

O avanço da Inteligência Artificial não é apenas uma disrupção tecnológica; é uma reconfiguração antropológica e económica do ecossistema cultural global. A realidade, contudo, exige dos cidadãos algo diferente, pragmatismo com princípios.

Como encontrar o equilíbrio entre a eficiência de uma produção ampliada por IA e a salvaguarda irredutível dos direitos autorais e da própria humanidade criativa?

A resposta não está no isolamento nem na capitulação, mas sim numa governança proativa. É por isso que o novo plano de ação de 11 pontos — desenvolvido por Octavio Kulesz**, Kelly Wilhelm***, Eduardo Saravia**** e Pearl Wang*****, sob a liderança de Karen Brodie****** — surge num momento tão crítico. Trata-se de um roteiro estratégico desenhado para orientar políticas nacionais e internacionais perante uma tecnologia que evolui a uma velocidade sem precedentes.

Para estruturar esta transição inevitável, a nossa agenda foca-se em quatro clusters vitais e interconectados:

1. Fortalecimento da Cadeia de Valor Criativa

A IA pode ser uma ferramenta de co-criação e otimização, mas apenas se o valor gerado reverter a favor de quem cria. Precisamos de mecanismos que garantam que os criadores não sejam substituídos pelos seus próprios dados de treino, mas sim remunerados e capacitados para utilizar estas novas ferramentas de forma soberana.

2. Salvaguarda da Pluralidade Cultural e dos Direitos Fundamentais

O risco de homogeneização cultural por via de algoritmos treinados maioritariamente no Norte Global é real. Proteger a diversidade de expressões culturais e os direitos de propriedade intelectual não é um capricho protecionista; é uma exigência de justiça cultural e direitos humanos.

3. Construçao de Bases Sustentáveis em IA

Uma economia criativa do futuro exige infraestruturas de IA que sejam éticas por desenho (ethical by design). Isto implica transparência total nos dados de treino (os datasets) e modelos de linguagem que respeitem as especificidades locais e as minorias linguísticas, combatendo os enviesamentos na raiz.

4. Coordenação de Conhecimento e Governança em Diferentes Escalas

A IA não respeita fronteiras geográficas ou setoriais. O sucesso desta agenda depende de uma governação multinível — local, nacional e internacional. Setores de tecnologia, decisores políticos e a sociedade civil têm de falar a mesma linguagem para evitar fragmentações jurídicas que apenas beneficiam os grandes monopólios tecnológicos.

O Desafio Transversal

Esta não é uma discussão circunscrita ao nicho da cultura.

A forma como o setor criativo resolver os dilemas da IA — desde os direitos de autor à autenticidade do trabalho humano — servirá de modelo para todas as outras indústrias que enfrentam a automação cognitiva.

O futuro da criatividade não tem de ser um jogo de soma zero entre humanos e máquinas. Pode ser um ecossistema ampliado, desde que as regras do jogo sejam justas, transparentes e centradas na dignidade humana.

Convido toda a nossa rede de líderes, investigadores e decisores a ler, debater e partilhar amplamente este documento. Os links para o relatório completo encontram-se nos comentários.

Participar no debate é essencial e começar por tratar da questão, como é que a organização responsável pela cultura na comunidade que integro está a equilibrar a inovação tecnológica com a proteção do talento humano?

* Nota do autor – concordo com a generalidade das conclusões do relatório, que apoio.

** Filosofo argentino especializado em temas digitais;

*** Estratega consultora de inovação política para as indústrias criativas na universidade OCADS/Canada;

**** Economista especializado em politicas publicas para a área da cultura e membro de diversos grupos de trabalho da Unesco;

***** Diretora do Centro para a cooperação global e educação para o desenvolvimento de Xangai;

****** Vice presidente do Centro de pesquisa das politicas das industrias criativas no RU.

Edição e adaptação com IA* de João Palmeiro com British Councui

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