OPINIÃO por João Palmeiro • Promotor e Divulgador Cultural

No seguimento da cobertura sobre a 16ª conferência Culture Next, trazemos hoje o testemunho central e mais aguardado do encontro. Em foco, os direitos e a proteção de criativos em cenários de crise humanitária através de uma conversa exclusiva que marcou os trabalhos do evento.

Durante a conferência, a editora-chefe da EcocNews, Mariateresa Cascino, entrevistou Mary Ann DeVlieg, uma das vozes mais respeitadas e ativas do mundo na defesa de criativos em contextos de vulnerabilidade política, perseguição e guerra.

Mary Ann DeVlieg, uma Vida Dedicada à Liberdade Artística

Mary Ann DeVlieg não traz para o debate uma visão puramente teórica; a sua carreira confunde-se com a própria história do ativismo cultural e da ajuda humanitária a criativos nas últimas décadas**.

Na entrevista concedida à EcocNews, DeVlieg trouxe um diagnóstico urgente: a necessidade de criar mecanismos práticos de apoio financeiro e legal e de transformar as cidades europeias em “portos seguros” capazes de acolher criativos exilados, garantindo que a memória e a identidade dos povos não sejam apagadas pela violência das armas.

O Contexto de Lárnaca, “Empoderando os Setores Culturais e Criativos”

Esta partilha de experiências cruas e urgentes assentou que nem uma luva no cenário que acolheu o evento. A 16ª conferência Culture Next teve lugar em Lárnaca, Chipre, uma ilha cuja própria história está profundamente marcada por fronteiras e divisões geopolíticas.

Sob o tema principal “Empoderando os Setores Culturais e Criativos”, o encontro reuniu decisores políticos, especialistas e redes de cidades com o objetivo de desenhar soluções para fortalecer o tecido cultural europeu face às crises contemporâneas. O debate sobre os direitos dos artistas em zonas de guerra tornou-se o coração emocional e político da conferência, demonstrando que a cultura não pode viver alheia à realidade das crises internacionais.

Portugal em Destaque, Pontes Culturais a Partir de Faro e Braga

Sendo a Culture Next uma rede vital que une cidades atuais, passadas e candidatas a Capital Europeia da Cultura (CEC), o encontro de Lárnaca contou com uma participação portuguesa expressiva e altamente estratégica, dividida entre o Algarve e o Minho.

O Compromisso de Faro

Levando a experiência e o ecossistema cultural desenvolvidos ao longo do seu percurso de candidatura a CEC, a delegação de Faro destacou-se em Chipre ao partilhar boas práticas de resiliência e ao defender a cooperação cultural transfronteiriça e mediterrânica. A presença de Faro reforçou a urgência de as cidades de dimensão média e periféricas assumirem também uma responsabilidade global, apoiando redes de solidariedade internacional e afirmando-se como espaços de acolhimento, diálogo e liberdade criativa.

Braga traz para Portugal o encontro de 2027

A representação nacional completou-se com a presença ativa de Braga, uma das cidades fundadoras da rede Culture Next. O encontro em Lárnaca acabou por ser histórico para a comitiva minhota: a rede confirmou oficialmente que Braga foi a escolhida para acolher a conferência europeia da Culture Next no outono de 2027. O futuro encontro em solo português será focado na transformação digital do setor cultural, consolidando o papel de Portugal na vanguarda do desenho das políticas criativas europeias para a próxima década.

* Next Culture, associasçaso de cidades europeias candidatas a Capital Europeia da Cultura antes e depois dos eventos.

** Consultora independente e doutorada em políticas e práticas relacionadas com artistas impactados pelo deslocamento forçado, DeVlieg atua diretamente desde 2009 como uma verdadeira “assistente social” para artistas perseguidos e em risco.

O seu percurso impressiona pela densidade institucional e pelo impacto real no terreno, no que toca à liderança e redes globais, Mary Ann DeVlieg foi Secretária-Geral do IETM (rede internacional de artes cênicas contemporâneas) entre 1994 e 2013, tendo ainda fundado ou cofundado plataformas essenciais de mobilidade, como a www.on-the-move.org e o Fundo Roberto Cimetta para Mobilidade no Mediterrâneo. Em termos de parcerias institucionais, trabalha em estreita colaboração com as iniciativas “Free to Create – Create To be Free – Culture and Cultural Heritage” do Conselho da Europa. Adicionalmente, no âmbito dos espaços de debate e proteção, atua como curadora e consultora para treinamentos e conferências internacionais, incluindo a conferência anual Safe Havens, integrando atualmente os Conselhos da Ettijahat – Independent Culture e da SH|FT Safe Havens Freedom Conversations. A sua influência estende-se também aos marcos legais na UE, onde fundou o grupo de trabalho da União Europeia Arts-Rights-Justice e cofundou a prestigiada Academia de Artes-Direitos-Justiça na Universidade de Hildesheim. Por fim, mantendo um foco sólido na Região MENA, com uma forte ligação ao Médio Oriente e Norte de África desde 1993, tem avaliado projetos, políticas e programas internacionais de colaboração cultural para os programas de cultura, pesquisa e desenvolvimento da Comissão Europeia, do CESE e de várias fundações privadas.

Edição e adaptação com IA de João Palmeiro com Mariateresa Cascinoi/ECOCNews

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