A governação eletrónica, ou e-governance, não tem necessariamente o mesmo valor político em todas as bancadas do Parlamento, pois diferentes partidos e ideologias têm prioridades e visões distintas sobre o uso da tecnologia no setor público. Aqui estão algumas das principais razões pelas quais o valor político atribuído à governação eletrónica pode variar:

  1. Prioridades ideológicas: Partidos de orientação mais liberal ou progressista tendem a valorizar a modernização e a digitalização dos serviços públicos como uma forma de aumentar a eficiência, a transparência e a acessibilidade para os cidadãos. Já partidos conservadores ou tradicionalistas podem ser mais cautelosos em relação a mudanças tecnológicas rápidas, enfatizando a proteção de dados e o impacto social, especialmente em áreas rurais ou mais isoladas.
  2. Ênfase em inclusão digital: Partidos de esquerda, como os de orientação socialista ou social-democrata, podem atribuir um valor especial à governação eletrónica no que se refere à inclusão digital, defendendo que a digitalização deve garantir o acesso universal aos serviços públicos e a redução das desigualdades. Já partidos de direita podem priorizar a eficiência administrativa e a diminuição dos custos com o Estado, vendo a governação eletrónica como uma forma de otimizar recursos.
  3. Questões de privacidade e segurança: Bancadas com forte inclinação para temas de segurança ou soberania digital, como partidos nacionalistas ou mais preocupados com questões de privacidade, podem valorizar a governação eletrónica sob o prisma da segurança dos dados e da autonomia tecnológica do Estado, defendendo regulamentos mais rigorosos para proteger os cidadãos e prevenir abusos.
  4. Perspetiva sobre modernização do Estado: Partidos que defendem a modernização e a desburocratização do Estado, independentemente do espectro político, podem ver a governação eletrónica como uma ferramenta crucial para reformar o funcionamento da administração pública. Por outro lado, partidos que se concentram mais na proteção do setor público tradicional, como partidos sindicais ou com forte ligação a serviços públicos, podem olhar para a digitalização com cautela, temendo a perda de postos de trabalho e a automatização excessiva.
  5. Experiência governativa e perceção pública: Partidos que já estiveram no poder podem ter uma visão mais pragmática da governação eletrónica, influenciados pela sua experiência direta com as dificuldades de implementação, enquanto partidos da oposição podem usá-la como uma bandeira política para criticar ineficiências ou lacunas no sistema.

Em resumo, a governação eletrónica é um tema que pode ser interpretado de forma diferente conforme as bancadas no Parlamento, de acordo com as suas prioridades políticas, preocupações com a equidade digital, a segurança e a eficiência do Estado. Cada partido pode valorizar diferentes aspetos da digitalização, dependendo das suas ideologias e da visão que têm para o futuro da administração pública.

Viés ideológico ou oportunismo populista da governação eletrónica?

A governação eletrónica pode ser influenciada tanto por viés ideológico quanto por oportunismo populista, dependendo de como é utilizada no discurso político e na implementação prática. Vamos explorar essas duas dinâmicas:

1. Viés ideológico

Quando a governação eletrónica é analisada sob a ótica do viés ideológico, reflete as crenças fundamentais dos diferentes partidos sobre o papel do Estado, a tecnologia e o serviço público. Algumas características desse viés podem incluir:

  • Progressismo e inovação tecnológica: Partidos de orientação progressista ou liberal podem defender a governação eletrónica como uma forma de democratizar o acesso aos serviços públicos, reduzir a burocracia e promover a transparência. Para esses partidos, a digitalização pode ser vista como um passo necessário para modernizar o Estado e torná-lo mais inclusivo e eficiente.
  • Conservadorismo e cautela tecnológica: Partidos mais conservadores podem ter uma abordagem cautelosa em relação à governação eletrónica, priorizando questões de segurança, privacidade e soberania. Eles podem temer que a digitalização exponha o Estado a riscos cibernéticos ou que substitua de forma indiscriminada o atendimento presencial, especialmente em áreas rurais ou entre populações mais vulneráveis.
  • Esquerda e inclusão digital: Partidos de esquerda podem se concentrar na necessidade de que a governação eletrónica beneficie todos os cidadãos, enfatizando a inclusão digital. Para eles, o foco deve ser garantir que a digitalização dos serviços públicos não crie novas formas de exclusão, como o “fosso digital”, que afeta quem não tem acesso à internet ou às tecnologias.

Esses posicionamentos refletem um viés ideológico genuíno, já que as diferentes posturas em relação à governação eletrónica são consistentes com as crenças e prioridades políticas de cada partido. Aqui, a tecnologia é vista como uma ferramenta que deve ser moldada para se alinhar com o projeto político do partido.

2. Oportunismo populista

Por outro lado, o oportunismo populista pode usar a governação eletrónica como um tema para angariar apoio político, sem um compromisso real com a sua implementação ou com a resolução das questões de fundo que ela envolve. Isso pode ocorrer de várias formas:

  • Promessas de modernização fáceis e rápidas: Políticos populistas podem prometer uma digitalização completa e imediata dos serviços públicos como forma de atrair eleitores, sem considerar as complexidades envolvidas, como a capacitação dos funcionários públicos, a infraestrutura digital necessária e as questões de segurança.
  • Discurso simplificado sobre eficiência: Oportunistas podem apresentar a governação eletrónica como uma solução mágica para todos os problemas da administração pública, sugerindo que ela pode cortar custos drasticamente e melhorar os serviços instantaneamente. Embora a digitalização possa melhorar a eficiência, muitas vezes esse discurso ignora as dificuldades e os investimentos necessários para que isso aconteça de forma justa e eficaz.
  • Usar o tema para criar inimigos comuns: Em um cenário populista, a governação eletrónica pode ser usada para culpar a “burocracia” ou o “sistema antigo” por todos os problemas do Estado, criando uma narrativa de “nós contra eles”, onde o político ou partido populista promete ser o único capaz de reformar o sistema através da tecnologia.

Nessas situações, o populismo usa a governação eletrónica como um tema conveniente para ganhar apoio, mas sem uma visão estratégica ou realista sobre como implementá-la ou sobre os desafios que ela apresenta.

Conclusão

Portanto, a governação eletrónica pode ser abordada tanto através de um viés ideológico quanto por oportunismo populista. O viés ideológico geralmente se reflete em discussões mais profundas sobre o papel da digitalização no Estado e seus impactos sociais, enquanto o oportunismo populista tende a tratar o tema de forma superficial e voltada para ganhos eleitorais rápidos, sem compromissos com uma implementação sustentável. O importante é observar como as propostas são fundamentadas e qual é o plano real de implementação, para discernir entre essas duas abordagens.

Luís Vidigal

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A governação eletrónica, também conhecida como e-governance, está a tornar-se um elemento central nas políticas públicas contemporâneas. No entanto, o seu valor político e a forma como é abordada variam significativamente entre diferentes partidos e bancadas parlamentares, influenciados pelos seus ideais e agendas. Esta variação de posicionamentos não é surpreendente, considerando que a governação eletrónica envolve não apenas a implementação de novas tecnologias no Estado, mas também a transformação de processos administrativos, sociais e económicos, que tocam em temas sensíveis como a equidade, privacidade e eficiência.

### Prioridades ideológicas

No panorama político, as diferenças entre partidos são claras quando se analisa a perceção da governação eletrónica. Partidos de orientação liberal ou progressista tendem a ver a digitalização como um instrumento de democratização e modernização do Estado. Para estes, a governação eletrónica aumenta a transparência, reduz a burocracia e facilita o acesso dos cidadãos aos serviços públicos, independentemente da sua localização ou classe social. Através da tecnologia, procuram criar uma administração pública mais inclusiva e ágil, onde os serviços estatais estejam mais próximos das pessoas.

Por outro lado, partidos conservadores ou mais tradicionais abordam a digitalização de uma forma mais prudente, com uma ênfase maior na proteção da privacidade e na segurança dos dados dos cidadãos. Para estes, as rápidas mudanças tecnológicas podem gerar riscos consideráveis, especialmente se a infraestrutura digital não for devidamente protegida. Além disso, manifestam preocupações com o impacto social da digitalização, especialmente em áreas rurais e em populações mais envelhecidas ou vulneráveis, onde o acesso à internet e às tecnologias digitais pode ser limitado. Este grupo pode ver a governação eletrónica como uma oportunidade, mas com a necessidade de uma implementação mais faseada e responsável.

### Ênfase em inclusão digital

Outro ponto de divergência está na inclusão digital. Partidos de esquerda, nomeadamente socialistas ou social-democratas, tendem a colocar um forte enfoque na digitalização como forma de reduzir desigualdades. Estes partidos defendem que a transição para serviços públicos digitais deve ser acompanhada por políticas que garantam o acesso universal à internet e às tecnologias, para que nenhum cidadão seja excluído. Para a esquerda, a digitalização só será bem-sucedida se conseguir incluir todos, sem deixar para trás os mais desfavorecidos ou tecnicamente excluídos, como idosos ou pessoas com menor literacia digital.

Já os partidos de direita podem ver a digitalização principalmente como uma oportunidade de eficiência administrativa. Para eles, a governação eletrónica é uma forma de otimizar o funcionamento do Estado, cortar custos e reduzir a dependência de um aparelho estatal demasiado pesado. Neste contexto, a digitalização é uma ferramenta para reduzir a intervenção estatal e promover um Estado mais enxuto e eficiente.

### Questões de privacidade e segurança

A privacidade e a segurança dos dados são questões centrais na governação eletrónica e frequentemente levantadas por partidos com uma orientação mais nacionalista ou focada na soberania digital. Estes partidos podem ver a digitalização sob uma perspetiva de risco, defendendo a necessidade de proteger a autonomia tecnológica do Estado e garantir que os dados dos cidadãos não são expostos a ameaças cibernéticas, muitas vezes associadas a atores externos. Para esses partidos, uma governação eletrónica robusta precisa de ser acompanhada por regulamentações fortes que impeçam o uso indevido dos dados e garantam a proteção da soberania nacional.

### Perspetiva sobre a modernização do Estado

Independentemente do espectro político, a modernização do Estado é um tema recorrente na governação eletrónica. Muitos partidos, particularmente os que defendem a desburocratização, veem a digitalização como uma oportunidade para simplificar e agilizar processos, tornando os serviços públicos mais acessíveis e menos burocráticos. Para estes partidos, a governação eletrónica é uma ferramenta crucial para reformar o funcionamento da administração pública, aproximando-a das necessidades dos cidadãos.

No entanto, partidos que têm uma ligação forte ao setor público tradicional, como partidos sindicais, podem encarar a digitalização com mais cautela. Para estes, a transição digital pode representar uma ameaça aos empregos no setor público, devido à automatização de processos, e, potencialmente, resultar numa deterioração da qualidade do serviço prestado ao cidadão, que perde o atendimento humano.

### Viés ideológico ou oportunismo populista?

É comum que a governação eletrónica seja moldada por um viés ideológico. Os partidos adaptam as suas propostas de digitalização às suas convicções sobre o papel do Estado, a inclusão social e a segurança dos cidadãos. Porém, em alguns casos, o tema pode ser usado como uma ferramenta de **oportunismo populista**. Quando isto acontece, a governação eletrónica é muitas vezes apresentada como uma solução rápida e simples para todos os problemas da administração pública, sem consideração real pelas complexidades e desafios envolvidos.

Políticos populistas podem prometer uma digitalização completa e imediata dos serviços públicos, apresentando-a como uma panaceia para questões de eficiência e custos. Este tipo de discurso ignora frequentemente os investimentos necessários, os desafios de infraestrutura e a capacitação dos trabalhadores do setor público, sugerindo que a digitalização pode ocorrer de forma instantânea e sem falhas. Além disso, este tipo de abordagem pode usar a governação eletrónica como uma forma de criar divisões políticas, culpando a burocracia ou o “sistema antigo” por todos os males do Estado, e prometendo que apenas eles têm a solução para modernizar o país.

### Conclusão

A governação eletrónica não é neutra do ponto de vista político, sendo moldada pelas ideologias dos diferentes partidos e, em alguns casos, sujeita ao oportunismo político. As diferenças ideológicas podem refletir-se na forma como cada partido aborda temas como a inclusão digital, a privacidade, a segurança e a eficiência do Estado. Enquanto uns veem a digitalização como um caminho para modernizar o Estado e promover a equidade, outros a encaram com prudência, preocupados com as suas implicações sociais e de segurança. No entanto, quando o tema é instrumentalizado de forma populista, os riscos de uma implementação inadequada tornam-se evidentes, o que sublinha a importância de uma abordagem equilibrada e realista.

Opinião de Luís Vidigal – Representante da sociedade civil na Rede Nacional de Administração Aberta, consultor internacional de e-Government, ativista cívico e ex-dirigente de topo em áreas tecnológicas e de modernização administrativa

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