Zé Olhinhos era um jovem curioso, daqueles que não deixavam passar nada despercebido. Vivia numa pequena cidade portuguesa, onde conhecia cada rua, cada casa, cada esquina. Desde pequeno, adorava explorar os cantos mais escondidos do seu bairro e fazer perguntas sobre tudo o que via. E foi numa dessas andanças que ele começou a notar algo estranho: parecia que as mesmas ruas estavam sempre a ser esburacadas por pessoas diferentes.

“Mas por que será que sempre abrem buracos nos mesmos lugares?” perguntou Zé a si mesmo, enquanto observava um grupo de trabalhadores a instalar cabos no meio da rua. Aquele mistério intrigava-o, e ele decidiu investigar. A primeira pessoa a quem foi pedir respostas foi o Sr. Manel, um amigo mais velho que sabia de tudo um pouco e gostava de ler o Diário de Notícias na praça.

“Ó Sr. Manel, por que é que empresas diferentes andam sempre a fazer obras nas mesmas ruas?” perguntou Zé, sentando-se ao lado do amigo.

O Sr. Manel baixou o jornal, mostrou uma notícia que falava da falta de um Cadastro Predial em Portugal, e começou a explicar: “Zé, o problema é que o nosso país não tem um Cadastro Predial completo. Ou seja, não sabemos exatamente a quem pertencem todas as terras, nem onde começa uma propriedade e termina outra. Isso cria uma grande confusão.”

Zé Olhinhos arregalou os olhos. Não fazia ideia de que o problema era tão grande. O Sr. Manel continuou a explicar que, ao longo das décadas, o governo tinha tentado várias vezes resolver a questão, com projetos como o SNIG, o SiNErGIC e mais recentemente o BUPi. Mas, por uma razão ou outra, nunca conseguiram terminar o trabalho. Era como se cada vez que um buraco era fechado, abriam-se outros dois.

“Mas por que é que nunca conseguem acabar o cadastro, Sr. Manel?” perguntou Zé, intrigado.

“Ah, meu rapaz,” respondeu o Sr. Manel, suspirando, “a verdade é que há muita gente que não quer que isso aconteça. Quando não se sabe quem é dono do quê, alguns espertos conseguem fazer negócios da China, comprando terras baratas que, de repente, valem uma fortuna. E depois há as disputas de poder entre diferentes entidades do governo, cada uma querendo controlar o processo. E assim, vamos empurrando com a barriga.”

Luís Vidigal

Zé Olhinhos ficou pensativo. Ele sabia que algo tão importante como o conhecimento do território não devia ser tratado de maneira tão descuidada. Começou a imaginar um futuro onde todas as terras estivessem bem mapeadas, onde qualquer pessoa pudesse saber exatamente quem é dono de quê, quem é o vizinho a quem arderam os pinheiros e onde as obras nas ruas fossem planeadas e sincronizadas, sem desperdícios de recursos.

Naquela noite, Zé não conseguiu dormir. Estava decidido a fazer algo para ajudar o país a resolver esse problema. No dia seguinte, foi à biblioteca da cidade e pediu um livro sobre Cadastro e Território. Queria aprender tudo o que pudesse sobre o assunto. Ao mesmo tempo, começou a falar com os amigos e a mobilizar outros jovens da sua cidade para se interessarem pelo tema.

Com o passar dos anos, Zé Olhinhos cresceu e tornou-se um verdadeiro líder comunitário. Organizou campanhas de sensibilização, envolveu-se em projetos de mapeamento local e fez pressão para que a criação do Cadastro Predial fosse uma prioridade. Graças ao seu esforço e à colaboração da comunidade, conseguiram implementar um sistema piloto no seu concelho, que se tornou um exemplo para o resto do país.

Finalmente, Portugal começou a avançar no conhecimento do seu território. O Cadastro Multifuncional, que Zé Olhinhos tanto sonhava, começou a tomar forma. As terras estavam agora bem mapeadas, as disputas de herdeiros resolvidas, e os cidadãos podiam aceder a informações claras e transparentes sobre as propriedades.

Zé Olhinhos, que começou como um jovem curioso a perguntar sobre buracos na rua, tornou-se um herói local, conhecido por ter ajudado a trazer mais transparência e desenvolvimento ao seu país. E enquanto olhava para um mapa digital de Portugal, agora completo e acessível a todos, Zé sabia que, apesar dos desafios, o esforço tinha valido a pena.

Portugal ainda tinha muito a fazer, mas com pessoas como Zé Olhinhos, o futuro parecia mais brilhante e promissor. Afinal, como ele sempre dizia: “O conhecimento é poder, e um país que se conhece a si mesmo é um país mais forte e unido.”

Opinião de Luís Vidigal – Representante da sociedade civil na Rede Nacional de Administração Aberta, consultor internacional de e-Government, ativista cívico e ex-dirigente de topo em áreas tecnológicas e de modernização administrativa

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