Numa altura em que se aproximam as eleições para a Presidência da República, marcadas para 18 janeiro de 2026, o candidato Henrique Gouveia e Melo esteve em Évora.

Nesta deslocação ao Alentejo, no dia 12 de novembro, o almirante esteve reunido com representantes de diferentes instituições, nomeadamente da Universidade de Évora (UÉ), do Parque do Alentejo de Ciência e Tecnologia (PACT) e do Núcleo Empresarial da Região de Évora (NERE).

Na ocasião, esteve também nas instalações do Grupo Diário do Sul (DS), tendo ficado a conhecer um pouco mais da realidade dos meios de comunicação social regionais.

Gouveia e Melo tem 64 anos e nasceu em Quelimane (Moçambique). Chegou a Lisboa em setembro de 1979, para ingressar na Escola Naval. Do seu vasto currículo, destaca-se que foi promovido ao posto de almirante e nomeado Chefe do Estado-Maior da Armada e Autoridade Marítima Nacional em 27 de dezembro de 2021.

É também lembrado por ter sido coordenador da task force para a vacinação contra a Covid-19, em Portugal, entre fevereiro e setembro de 2021.

Foi a 27 de dezembro de 2024 que passou à reserva, terminando nessa data as suas funções militares.

Em entrevista ao DS o candidato presidencial Gouveia e Melo falou da situação do país, mas também do Alentejo. Descreveu os principais pontos da sua candidatura, evidenciando ainda o papel do Presidente da República (PR).

– Que preocupações e que ideias leva desta visita a Évora?

– Vim falar com os portugueses que vivem no interior para me descreverem quais são os problemas e os desafios ao viverem cá. Mas também para sinalizar que há aqui no Alentejo, e neste caso em Évora, um triângulo muito positivo.

Esse triângulo é a universidade, que faz desenvolvimento; institutos que fazem inovação e empresas que aproveitam essa inovação, fechando o ciclo.

Isto é o que nós precisamos para uma economia moderna. A nossa economia ainda não é das mais modernas porque nós precisamos de ter uma economia de elevado valor acrescentado e de elevada produtividade. Só vamos conseguir ter isso quando conseguirmos injetar verdadeiramente conhecimento e tecnologia na nossa economia.

Acho que a economia é um dos grandes problemas. Mas na base da economia está a educação. Na educação, temos de valorizar claramente o conhecimento, mas se calhar temos de valorizar mais a autonomia dos jovens; a capacidade de procurar, pesquisar e ser autónomo; a capacidade crítica, porque hoje os jovens vivem num ‘mar’ de informação e perdem-se, muitas vezes com informação que não tem qualidade. Dar-lhes ainda ferramentas para uma ética que tem a ver com o viver em sociedade, em que temos regras.

De alguma forma, também temos de ajudar a requalificar empregos porque com as novas tecnologias vamos ter muitas alterações do que é o tecido económico. Temos ainda outros problemas que nos afetam, como é o caso da habitação, que também existe aqui em Évora.

Para desenvolver um território não é com um decreto-lei, é com práticas que façam com que a economia se desloque para estes territórios. E quando isso acontece, a população também se desloca para lá.

Vim aqui perceber todas estas variáveis, falar com quem está no território e conhece verdadeiramente os problemas. Ao falar com todos os atores acabo por ter uma perspetiva muito superior e de maior qualidade de quais são os reais problemas dos portugueses.

– Quais as suas motivações para se candidatar a PR?

– Acredito que Portugal pode ser um Portugal rico, coeso e sem pobreza estrutural. Acredito verdadeiramente num Portugal diferente. No fundo, é por isso que me candidato. Quero ajudar a fazer essa diferença.

Não o poderei fazer sozinho, mas através do lugar da Presidência da República, com a influência da própria Presidência e do lugar presidencial, ajudar o país a evoluir, a dar o salto para a frente, com ambição, sem medo.

Eu acho que os partidos são essenciais para a democracia, mas têm de se renovar. Se não se renovarem, aparecerão outros partidos que tomarão conta da democracia. Os partidos tradicionais estão a fechar-se, criam pequenas oligarquias e não incorporaram novas pessoas, nem conhecimentos. É o que eu chamo um “pântano estagnado” e assim a “água apodrece”. Precisamos de gente jovem, com valor, que venha de fora da política, mas que queira verdadeiramente contribuir para o país. Ao contribuir para as soluções de que o país precisa, está a fazer política.

A minha candidatura é para contribuir para uma ambição nova de querer um Portugal diferente, de não estar satisfeito da nossa economia estar a cair para a cauda da Europa. Essa vitória tem de ser construída por todos nós, todos os dias, com esforço, capacidade e perseverança.

– Qual o papel que o PR pode ter para encontrar soluções para os desafios que partilhou?

– O PR para além de falar com o Governo, ter o seu papel constitucional atribuído, nomeadamente de dissolução do Parlamento que é o poder mais elevado, tem também outros poderes, como o de veto. Mas o poder que acho que é mais relevante é o poder da magistratura de influência. O PR pode ajudar a criar como se fosse um campo magnético que orienta e une os portugueses numa solução conjunta para um futuro diferente. Faz isso mobilizando a sociedade e as instituições, ajudando o Governo quando for necessário. O PR tem instrumentos verdadeiramente essenciais para se transformar num inspirador da mudança, unindo todos os portugueses.

O meu verdadeiro partido é Portugal. Não tenho a facção A, B ou C, não quero discutir essas facções para umas eleições que não são partidárias, mas sim individuais.

Nós precisamos de um PR que seja um árbitro e um moderador de um sistema que está neste momento fragilizado.

– Quais são as suas expectativas para as eleições de 18 de janeiro?

– Há esta tentativa de dizer que a experiência política é importante. Para mim, a experiência politico-partidária é estagnação, não é a que resolve os problemas do país.

Além disso, julgo que trago a minha personalidade, que as pessoas já tiveram oportunidade de conhecer num momento crítico.

Vivi dos rendimentos do meu trabalho, esforcei-me, durante 45 anos servi nas Forças Armadas com toda a minha dedicação, nunca estive na política partidária, nunca usei as minhas influências para enriquecer. Sou transparente, a minha integridade julgo que é óbvia e sou sincero.

Acho que hoje o que está em causa é liberdade ou opressão, integridade ou compadrio e transparência ou opacidade. Eu quero estar na liberdade, na integridade e na transparência. É isto que eu sou e sempre fui. É com lealdade que quero servir o país nesta nova função e acredito que os portugueses me vão ajudar a fazer esse passo.

– Que importância têm os meios de comunicação social regionais para o desenvolvimento de um território?

– São muito importantes porque a lógica macro, não é a lógica micro. A realidade local só tem uma forma de ser exposta e de ser trabalhada. Essa forma requer órgãos de comunicação social locais, que se preocupem com os problemas de uma determinada região ou localidade; que tenha uma grande proximidade às pessoas que vivem nesse território; e que, de alguma forma, reflitam nos artigos que publicam essa realidade, que é uma realidade local, que tem depois uma ligação à macro realidade do país. Diria que são a garantia de que num território o poder autárquico e local também mantêm os princípios da democracia, da transparência e do serviço público. A comunicação social nacional, regional ou local tem ainda uma importância fundamental porque é um moderador da informação. É um agente habilitado a distinguir o que é boa ou má informação e a dar em doses adequadas o antídoto desse vírus da desinformação do século XXI.

– Uma mensagem para os portugueses, em geral, e para os alentejanos, em particular.

– Desejo um Portugal diferente, quero lutar por ele e espero que os portugueses também o queiram e me ajudem a fazer isso.

Trabalhei com muitos militares na Marinha, todos diferentes e fantásticos, mas os militares que vinham do Alentejo tinham características de resiliência que me deixavam sempre muito impressionados pela positiva.

Ao longo da minha vida fui juntando algum dinheiro, fruto da minha profissão. Tive oportunidade e vim comprar uma pequena propriedade no Alentejo. Porque acho o Alentejo um sítio extraordinário e quis ter uma raiz, vim de África e queria ter um terreno, por isso vim criar isso ao Alentejo. Tenho um senhor fantástico que me ajuda a manter a propriedade limpa. Sempre que se despede de mim, diz: “Senhor almirante, saudinha da boa”. Fico deliciado. Adoro o Alentejo e as pessoas daqui, é a minha segunda casa.

Texto: Redação DS / Marina Pardal
Fotos: DS

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