Fátima Luz nasceu no Alentejo em Évora no final dos anos cinquenta e deu os primeiros passos no raiar dos anos sessenta, quando o mundo começava ouvir outras batidas musicais e o planeta Terra passava por uma grande transformação.
Por isso, um dos seus lemas de vida era Peace, Love and Freedom… Always!
Dona de uma força, alegria, entusiasmo e coragem invulgares, a Fátima Luz tinha uma luz interior com um brilho muito forte, o seu apelido fazia jus à sua natureza rebelde, anárquica, contestatária.
Fátima Luz tinha uma mente brilhante, uma inteligência rara e um sentido de humor muito próprio.
Não tinha irmãos, não tinha religião, não se importava com a opinião alheia e tinha amigos pouco convencionais, entre eles Deus.
Aliás, as histórias mirabolantes que inventavam sobre a sua vida privada, eram motivo de grandes e sonoras gargalhadas.
Não seguia ninguém, fazia o que lhe dava na gana e adorava viver!
Maria de Fátima Luz era a expressão viva da alegria de viver!
Fez parte das turmas de alunos do Liceu Nacional de Évora que funcionava nos antigos claustros da Universidade de Évora e participou em greves estudantis.
Estudou no Instituto Português de Cinema, estudou Jornalismo na Universidade de Évora, fez cursos de Comunicação Social, Cinema e Televisão.
Fátima Luz foi casada, tendo-se divorciado mais tarde.
Foi mãe uma vez e recordava com uma grande felicidade a experiência de ter dado à luz como a que mais a marcou positivamente na sua vida.
Era do tipo louca de amor pela filha, super mãe galinha, mas proporcionou à sua filha Iris Batalha, hoje notável cientista reconhecida pela comunidade científica internacional, uma educação incrível, onde não faltou conhecer o mundo, outros povos, outras culturas, outros hábitos e novos horizontes.
Adorava Música, Cinema, Fotografia, Televisão, Animação 2D e 3D, Banda Desenhada, Livros, Arte, Escrita, Tertúlias, Festas, Viagens e conviver com os amigos.
Fundou a Sulmedia em Évora, juntamente com Quintino Lopes, Eduardo Basso e José Ribeiro, no princípio dos anos 90 quando surgiam as televisões privadas em Portugal.
Fátima Luz foi uma grande pioneira e o seu nome fica gravado para a História como a primeira mulher a sul do Rio Tejo a trabalhar como Produtora e Realizadora em Televisão e Cinema.
Foi nesta empresa, muito antes de existir fibra ótica, telemóveis, autoestradas, ou internet no dia-a-dia, numa redação viva com vários jornalistas da SIC e da TVI, e dois estúdios de Televisão, que se realizou durante muitos anos o trabalho dos correspondentes no Alentejo e Algarve, assegurado por uma equipa de Operadores de Câmara profissionais.
A paixão que a Fátima Luz sentia pelo seu trabalho era efervescente e contagiante.
Fátima Luz, caçadora de talentos, rodeou-se de excelentes profissionais, sabia como liderar e ensinar, percebia instintivamente quem tinha na frente, trabalhava muito bem em equipa, e realizava programas de televisão em directo com rigor e profissionalismo de excelência, acrescido de um grande sorriso.
A Sulmedia, com a Fátima Luz na linha da frente, será recordada como uma das primeiras Produtoras de Televisão Independente, sediada em Évora, de onde saíram milhares de reportagens, para os Telejornais, para programas como Grande Reportagem, Praça Publica, Casos de Polícia, Noite da Má Língua, etc, além de um sem fim de documentários, filmes publicitários e institucionais.
Mais tarde, com o surgimento de novos canais de televisão, a empresa dissolveu-se e transformou-se na Keyframe, dedicada essencialmente à criação e animação gráficas 2D e 3D, produção e edição de audiovisual, realização e produção de filmes e vídeo, produção e edição gráfica de suportes informáticos e software, publicidade e comunicação.
Nascida sob o fogo zodiacal de Júpiter, Fátima Luz era uma mulher generosa, intensa, autêntica, aventureira, orgulhosa de quem era e do que alcançou, possuidora de um grande poder de sedução, conquista e manifestação.
Sonhadora incorrigível, a Fátima Luz sabia o que queria na vida e queria as coisas à sua maneira. Como tal, podia sair subitamente um berro ou um murro na mesa, mas que rapidamente davam lugar a um sorriso ou um abraço.
Tinha convicções sólidas e firmes, intolerável a injustiças, e um coração d’ouro que derretia perante alguns cenários inesperados.
Algumas das suas qualidades extraordinárias eram a sua memória de elefante, confiar na sua intuição, rir de si própria, não se deter nos contratempos nem ficar um segundo a ruminar sobre o que já passou.
Colecionadora nata e perspicaz, teve ao longo da vida interesse por colecionismo em várias áreas.
Bom garfo, amante da boa gastronomia, a Fátima Luz podia ficar uma noite inteira a trabalhar, a observar os astros cintilantes do vasto céu estrelado alentejano no telescópio ou a ver cinema e conversar com os amigos até nascer o Sol.
Era apaixonada pela vida, uma daquelas pessoas raras que celebra a vida a cada instante e que por isso mesmo nos parece que vão viver para sempre.
A Fátima Luz não despertou de um sono sereno, deixando uma marca de vida impressionante.
Lamentamos profundamente a sua partida precoce.
A Fátima Luz tocou, com uma flecha de fogo, força e alegria, nos corações de todos com quem se cruzou.
Temos tantas boas memórias da Fátima Luz quantas estrelas há no céu do nosso Alentejo.
Oscar Wilde disse na época: “Viver é a coisa mais rara do mundo, a maioria das pessoas apenas existe.”
A nossa querida amiga Fátima Luz soube viver!
A nossa querida amiga Fátima Luz era rara!
Como um Sol, a sua presença era notada e a sua falta será muito sentida.
Esperamos que a cidade de Évora e os órgãos de Comunicação Social saibam honrar e homenagear a sua vida.
Serra de Sintra, 31.7.2024
Avani Ancok (Luisa Madeira)
