OPINIÃO por João Palmeiro • Promotor e Divulgador Cultural

A pobreza na Europa é mais do que uma estatística. É uma realidade diária para milhões que lutam para aceder a serviços essenciais e participar plenamente na sociedade.

O combate à pobreza exige mais do que apoio direto ao rendimento ou cuidados de saúde; depende dos sistemas, profissionais e estruturas de governação que transformam a política em ação. Enquanto a União Europeia (UE) prepara a sua primeira Estratégia Abrangente Anti-Pobreza, as cidades provam que as soluções eficazes devem ser inovadoras e impulsionadas localmente.

Para escalar estas soluções, a Europa deve investir nas suas fundações.


A Estratégia Abrangente, Prevenção e Intervenção Precoce

As cidades defendem uma Estratégia Anti-Pobreza da UE que priorize a prevenção e a intervenção precoce, com foco nos seguintes pilares:

  • Quebrar o ciclo geracional da pobreza: Focar nas crianças e investir em educação inclusiva e de alta qualidade.
  • Garantir rendimento suficiente: Assegurar um rendimento que garanta um nível de vida digno e reconhecer a discriminação como uma causa e multiplicador da pobreza.
  • Combater a crise da habitação: Promover o princípio “Housing First” e soluções de longo prazo para acabar com a situação de sem-abrigo.
  • Apoio a grupos vulneráveis: Incluir o apoio a migrantes e a prevenção do sobre-endividamento.

As 5 Recomendações Prioritárias das Cidades

1. Reforçar a Força de Trabalho Social e de Cuidados

Uma força de trabalho qualificada e bem apoiada é a espinha dorsal da redução da pobreza. Profissionais sociais, educadores e de cuidados enfrentam baixos salários e contratos precários, arriscando, por vezes, a pobreza.

  • É essencial investir em salários justos, formação e desenvolvimento de carreira para garantir o apoio de alta qualidade.
  • Este ponto deve ser conjugado com o reforço do acesso a empregos e competências de qualidade em toda a Europa.

Exemplo, o Centro de Dia Socio-Sanitário de Ungheni (Moldávia) oferece um modelo poderoso de cuidados holísticos e integrados.

2. Tornar a Governação Baseada no Território Funcional

A pobreza é multidimensional, exigindo ação coordenada. Políticas fragmentadas e governação em silos (isolada) criam lacunas no apoio.

  • A estratégia da UE deve reforçar a coordenação entre níveis de governação e apoiar parcerias locais, garantindo a combinação entre o conhecimento local e os recursos públicos.
  • É crucial incluir pessoas com experiência vivida de pobreza na conceção e avaliação de medidas.

Exemplo (Milão), o programa Networks with Welfare de Milão conecta instituições públicas e ONGs em todos os distritos para fornecer apoio financeiro, saúde e bem-estar infantil.

3. Capacitação e Intercâmbio de Conhecimento

As soluções inovadoras que surgem localmente devem ser expandidas. A capacitação estruturada e a aprendizagem entre pares são cruciais para este fim.

  • A proposta de Missão da UE para Cidades contra a Pobreza (inspirada na Missão para Cidades com Neutralidade Climática) poderia fornecer as ferramentas, o financiamento e o reconhecimento necessários para transformar o sucesso local em impacto a nível europeu.

4. Garantir Acesso e Sustentabilidade no Financiamento

Estratégias ambiciosas requerem recursos dedicados.

  • As cidades devem ter acesso direto aos fundos da UE, com apoio específico para prevenção, inclusão social e intervenção precoce.
  • As lições do Mecanismo de Recuperação e Resiliência (MRR) da UE mostram que a centralização excessiva de fundos pode falhar em chegar aos mais necessitados.
  • São cruciais recursos afetos especificamente à pobreza infantil, bairros vulneráveis e serviços de intervenção precoce.
  • Deve ser assegurada a mobilidade acessível e a preços comportáveis para todos.

5. Estabelecer Objetivos Ambiciosos e Medir o Progresso

Para acompanhar o progresso, são necessárias metas claras, monitorização robusta e elaboração de políticas baseada em evidências.

  • Os indicadores devem ser expandidos para cobrir a pobreza multidimensional – incluindo pobreza no trabalho, habitação, acesso a serviços e inclusão digital.

Exemplo, em Glasgow (Reino Unido) o  projeto de serviços municipais em escolas demonstrou que, com uma abordagem orientada por dados, as famílias acederam de forma mais eficiente a mais de £7,5M em benefícios.


Construir Sistemas Resilientes para um Impacto Duradouro

O apelo da Eurocities, ‘Da crise à ação: Um apelo a uma Estratégia Anti-Pobreza da UE integrada, liderada pelas cidades’, defende uma abordagem holística e intersetorial.

Combater a pobreza exige um investimento contínuo em:

  • Profissionais;
  • Governança;
  • Redes de cidades;
  • Financiamento;
  • Dados.

Com o apoio certo, as cidades europeias podem garantir um futuro onde a pobreza é prevenida, e todos têm a oportunidade de prosperar.

Edição e adaptação com IA de João Palmeiro com Eurocities/Marta Buces

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