OPINIÃO por João Palmeiro • Promotor e Divulgador Cultural

O continente africano está num ponto de viragem, oscilando entre a abertura do seu vasto potencial empreendedor e a afirmação do controlo sobre os seus recursos naturais. No meio destas transformações, a Língua Portuguesa emerge como um fator crucial, tecendo uma rede de oportunidades em termos de negócios e diplomacia, especialmente nas regiões de influencia dos países de expressão oficial portuguesa (PALOP).

O Custo Oculto da Burocracia: A Velocidade de Iniciar um Negócio

A velocidade com que se pode legalmente iniciar uma atividade empresarial em África é um indicador económico mais revelador do que a maioria imagina. O número de dias necessários para o registo de um negócio varia drasticamente, expondo um panorama desigual:

  • Líderes de Desburocratização: Ruanda e Maurícia destacam-se, registando empresas em menos de 3 a 7 dias. Ruanda, por exemplo, digitalizou o processo, permitindo registos online rápidos.
  • Média Regional: Países como Marrocos, Gana e Quénia situam-se na faixa de 10 a 30 dias.
  • Desafios Burocráticos: Em estados frágeis ou sem litoral, o processo pode prolongar-se para mais de 60 a 90 dias, um período que a média global de 34 dias demonstra ser excessivo.

Este atraso prolongado é mais do que uma formalidade; representa um custo de capital significativo, tempo é capital. Cada dia de espera é um dia perdido na construção de clientes e na criação de empregos.

Por que a Burocracia Lenta Prejudica o Crescimento:

  1. Alimenta a Informalidade: A complexidade e lentidão dos processos levam pequenos empreendedores a operar fora do circuito formal.
  2. Reduz Empregos Formais: Menos empresas registadas formalmente resultam em menor oferta de empregos estáveis.
  3. Mata a Concorrência: A complexidade burocrática atua como uma barreira de entrada para novos players, favorecendo os incumbentes.

Os exemplos de Ruanda e Maurícia (com o ser “balcão unico” de aprovações) demonstram que a reforma é possível. Não se trata de replicar a infraestrutura de Singapura, mas sim a sua clareza e simplicidade processual.

O Crescente Nacionalismo de Recursos, Oportunidade ou Obstáculo?

Outra mudança profunda em curso é o crescente nacionalismo de recursos em África. Impulsionados pela pressão social e a necessidade de capturar valor internamente (através da refinação e transformação, em vez da simples exportação de minério bruto), os governos estão a exigir um maior controlo sobre minerais cruciais como o lítio, o cobalto e o petróleo.

O dilema reside no equilíbrio:

  • Risco: Regras excessivamente restritivas, como proibições de exportação repentinas ou impostos imprevisíveis, podem afugentar o investimento estrangeiro, prejudicando o crescimento.
  • Oportunidade: Ser demasiado tolerante repete o erro histórico de exportar riqueza bruta, deixando as comunidades locais na pobreza.

O caso do Botswana e a sua estratégia de diamantes, que desenvolveu centros locais de lapidação e comércio através de renegociações graduais com a De Beers, serve de exemplo. A questão não é se África deve abraçar o nacionalismo de recursos, mas sim como o pode fazer de forma inteligente: com regras claras e estáveis, uma visão de longo prazo para as indústrias de transformação e governança transparente.

A Língua Portuguesa como Ponte nos Negócios e na Diplomacia

Neste contexto de necessidade de desburocratização e de afirmação no controlo de recursos, o papel da Língua Portuguesa nos negócios e na diplomacia africana assume uma importância crescente.

Reforço nos Negócios:

  • Acesso a Mercados Chave: Os PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), como Angola e Moçambique, são mercados de recursos naturais e hubs de infraestrutura críticos, especialmente na Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC). A língua comum facilita a entrada de empresas e o entendimento regulatório entre nações lusófonas e o Brasil/Portugal.
  • Mitigação da Burocracia: O uso do Português pode agilizar a comunicação e a tramitação de documentação em países como Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Num continente onde a burocracia é um obstáculo estrutural, a clareza e a facilidade de comunicação em Português no front office governamental são um benefício tangível para os investidores lusófonos.

Alavanca na Diplomacia:

  • Coordenação Sul-Sul: A CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) proporciona uma plataforma diplomática para alinhar as iniciativas de nacionalismo de recursos e promover a transferência de conhecimento sobre desburocratização.
  • Voz Comum em Blocos Regionais: Na SADC (onde Angola e Moçambique são membros) e na CEDEAO (Cabo Verde e Guiné-Bissau), o Português permite que os estados lusófonos coordenem posições, influenciando as regras de comércio e investimento, bem como a harmonização política e a cooperação em segurança.

A Língua Portuguesa é, portanto, mais do que um laço cultural; é uma ferramenta de simplificação de negócios e um veículo de coordenação diplomática que pode ajudar a moldar uma África onde o crescimento é mais rápido, as regras de investimento são mais claras e a riqueza dos recursos é capturada localmente.

Edição e adaptação com IA de João Palmeiro com Dishant Shah

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