OPINIÃO por João Palmeiro • Promotor e Divulgador Cultural

A Conferência Mundial da UNESCO sobre Políticas Culturais, conhecida como MONDIACULT 2025, em Barcelona, surge como um momento decisivo para o futuro da cultura. À medida que a Agenda de Desenvolvimento Sustentável da ONU para 2030 se aproxima do seu fim, a quarta edição deste fórum global assume uma importância crucial. O objetivo principal é consolidar a cultura como um pilar fundamental para o desenvolvimento sustentável, com a ambição de que seja reconhecida como um objetivo independente na próxima agenda global.

Para entender o papel da cultura neste contexto, é vital analisar as principais discussões que moldarão a MONDIACULT 2025 com base num relatório de 2021, elaborado por Beatriz Garcia* para a UNESCO e o Banco Mundial, e na evolução do setor cultural desde então, para aprofundar seis temas centrais sobre como Cidades, Cultura e Criatividade foram vistas em 2021 e preparam o cenário para o debate e atualização em 2025.

Cultura como Motor da Regeneração Urbana

As indústrias culturais e criativas têm demonstrado ser catalisadoras da revitalização de áreas urbanas. Exemplos como a Green Street em Nova Iorque ou os murais de Valparaíso mostram como iniciativas artísticas conseguem remodelar o tecido urbano e a identidade comunitária. No entanto, o desafio persiste: a gentrificação e a deslocação de residentes.

Em 2025, o debate evolui para além da mera vitalidade criativa. As cidades enfrentam crises climáticas e sociais agravadas, o que exige que a regeneração urbana seja também sobre resiliência climática e a criação de espaços seguros e partilhados que combatam a polarização. A cultura deve ser vista como uma infraestrutura resiliente que apoia a apropriação comunitária, em vez de impulsionar a especulação imobiliária.

Impacto Económico e Medição

As indústrias culturais e criativas são uma fonte significativa de emprego, especialmente para jovens e mulheres. Existe uma correlação positiva entre o crescimento económico e o investimento cultural. No entanto, faltam dados e metodologias consistentes para medir o seu impacto total.

A partir de 2025, a medição do impacto cultural deve ir além dos indicadores tradicionais, como o PIB. Será essencial considerar o impacto de carbono dos eventos, o contributo para a saúde mental e a coesão social, e a equidade dos benefícios, garantindo que os ganhos chegam aos trabalhadores informais e aos artistas, e não apenas às grandes instituições.

Grandes Eventos e Intervenções Culturais

Grandes eventos, como festivais ou programas olímpicos, podem ser poderosos catalisadores de transformação a longo prazo. No entanto, estes eventos operam agora num ambiente de “crise permanente”, com riscos de saúde, emergências climáticas e instabilidade geopolítica.

A resposta passa por repensar a sua escala e sustentabilidade. Isto traduz-se em formatos mais pequenos e distribuídos, modelos de entrega híbridos (digitais e físicos) e um maior escrutínio sobre o seu legado. Os eventos futuros terão de ser avaliados não apenas pela visibilidade que geram, mas também pela sua capacidade de deixar para trás infraestruturas verdes, programas comunitários resilientes e um reforço da confiança cívica.

Cultura e Coesão Social

A cultura tem um papel crucial na construção de capital social e na resiliência das comunidades. Processos culturais participativos promovem o diálogo e a inclusão. No entanto, a polarização e a desinformação representam um desafio crescente.

Em 2025, a política cultural deve ser encarada como uma infraestrutura de resiliência democrática. Isto implica investir em rituais cívicos partilhados, apoiar mediadores culturais e utilizar plataformas artísticas para o diálogo em espaços de conflito. O grande teste será verificar se a cultura consegue combater o extremismo e a fragmentação digital.

Estruturas para a Transformação Urbana Liderada pela Cultura

Em 2021, a UNESCO identificou seis fatores-chave para a transformação liderada pela cultura: infraestruturas urbanas, competências, redes de apoio, instituições, singularidade e o ambiente digital.

Para 2025, cada um destes fatores precisa de uma nova abordagem, adaptada à realidade das crises atuais. As infraestruturas devem ser resilientes às alterações climáticas; as competências devem incluir a literacia em inteligência artificial e a ética digital; e as instituições devem reforçar a proteção contra a censura e a desinformação. O desafio é garantir que estas estruturas priorizam a resiliência e a equidade em vez do crescimento a qualquer custo.

Resiliência Numa Era de Crise Permanente

A pandemia de COVID-19 demonstrou tanto a vulnerabilidade das indústrias criativas como a sua importância para a resiliência social. As cidades com ecossistemas culturais mais fortes mostraram-se mais aptas a enfrentar o choque.

Em 2025, a conversa vai além da resposta à pandemia, focando-se na resiliência permanente. Isto significa que as indústrias criativas devem preparar-se para choques contínuos, como os eventos climáticos ou a instabilidade geopolítica. O planeamento deve incluir modelos hipocarbónicos, centros culturais distribuídos e uma preparação centrada na comunidade. A cultura é cada vez mais vista como um bem público essencial, crucial para a resiliência psicológica e cívica, e não apenas como um setor económico.

Capitais Europeias da Cultura e a MONDIACULT 2025

Neste contexto, as Capitais Europeias da Cultura (CEC) desempenham um papel fundamental. O programa, criado em 1985, visa destacar a riqueza e a diversidade das culturas europeias, ao mesmo tempo que promove o desenvolvimento social e económico das cidades anfitriãs. A agenda da MONDIACULT 2025, com o seu foco na regeneração urbana, na coesão social e na resiliência, alinha-se diretamente com os objetivos das CEC.

Embora o programa das CEC tenha sido bem-sucedido em promover a regeneração urbana, este também enfrentou desafios, como a gentrificação e a turistificação. É aqui que os debates da MONDIACULT 2025 se tornam cruciais. As CEC futuras têm a oportunidade de servir de laboratório para a implementação das novas prioridades, focando-se em:

  • Sustentabilidade: Incorporar a adaptação às alterações climáticas nos programas culturais.
  • Inclusão: Garantir que os benefícios chegam a todos os cidadãos, combatendo a polarização.
  • Resiliência: Construir ecossistemas culturais que possam resistir a choques futuros.

A troca de experiências e as políticas partilhadas entre as CEC podem contribuir de forma significativa para as discussões globais em Barcelona.

Assim o trabalho de Beatriz Garcia é uma referência incontornável na análise do impacto dos grandes eventos e das Capitais Europeias da Cultura. As suas investigações focam-se nos legados e nas promessas de transformação urbana através da cultura, com particular ênfase na forma como estes eventos se ligam aos seus contextos locais.

A sua obra The Olympic Games and their cultural dimension: The case of London 2012 é um exemplo notável, onde Garcia examina como os Jogos Olímpicos são usados para impulsionar a regeneração urbana, a atração turística e a coesão social. Através de um estudo detalhado, ela desmistifica o mito de que os grandes eventos, por si só, garantem legados positivos, defendendo que o seu sucesso depende de um planeamento cuidadoso e de alianças intersetoriais.

Outra linha de investigação crucial de Garcia diz respeito à medição do impacto cultural. Ela defende a necessidade de metodologias que capturem não apenas o valor económico, mas também os benefícios sociais, a resiliência e o desenvolvimento de competências. A sua visão é fundamental para os debates da MONDIACULT 2025, que procuram ir além de métricas simplistas para construir uma compreensão mais holística e rigorosa do valor da cultura.

No contexto português, embora a presença de nomes específicos na MONDIACULT 2025 ainda não tenha sido amplamente divulgada, a relevância do trabalho de Garcia, que estudou os programas culturais olímpicos e os seus legados, é indiscutível. A sua análise aprofundada sobre a relação entre grandes eventos, planeamento urbano e transformação social é uma ferramenta valiosa para compreender os desafios e as oportunidades que cidades como Guimarães (2012) e Évora (2027) enfrentam.

* Beatriz Garcia , Autora | Consultora | Palestrante | Estrategista | Investigadora | Especialista em Olimpíadas Culturais, marca dos Jogos Olímpicos, Capitais Europeias da Cultura, Festivais Internacionais de Arte e seu legado a longo prazo

No se mais recente artigo, responde a um dos principais temas da Mondiacult (a Economia da Cultura), analisando as principais descobertas que informam as visões da UNESCO sobre Cidades, Cultura e Criatividade até o momento e atualizando-as por meio de minha pesquisa de longo prazo sobre cidades, grandes eventos e transformação urbana liderada pela cultura.

Edição e adaptação com IA de João Palmeiro a partir de trabalhos de Beatriz Garcia.

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