O eborense João Canento completou, este domingo, o Ultra-Trail du Mont-Blanc (UTMB), uma das provas mais duras do calendário mundial de trail running, conhecida como o “Everest” das corridas de montanha. O atleta percorreu os 175 quilómetros, com 9985 metros de desnível positivo, em 44 horas e 54 minutos, terminando no 1290.º lugar da classificação geral e alcançando um honroso 15.º lugar no escalão M60-64.

A partida deu-se na sexta-feira, em Chamonix, e a chegada aconteceu no domingo, pouco depois das 13h00 (hora de Lisboa). Ao longo de quase dois dias de esforço, João Canento descansou apenas três horas e oito minutos, enfrentou condições meteorológicas adversas — chuva, vento forte e neve — e sofreu uma queda aparatosa que lhe deixou o sobrolho rasgado e o nariz ferido. “A queda, a descer o topo da montanha, muito escorregadia, poderia ter deitado por terra o meu sonho. Ainda tentaram convencer-me a desistir, mas não aceitei. As dores acompanharam-me até quase ao fim”, contou.

O UTMB, considerado a final do circuito mundial da modalidade, reuniu novamente a elite do trail, atravessando França, Itália e Suíça, por trilhos de alta montanha, subidas intermináveis e descidas técnicas. Canento sublinhou a dureza do percurso: “Enquanto em Portugal fazemos 1000+ em várias subidas e descidas, ali é direto ao céu. Psicologicamente era muito duro, vinham pensamentos negativos a dizer para desistir, mas depois a euforia de chegar a cada abastecimento fazia-me continuar.”

Sem dormir durante duas noites, o atleta apostou numa tática arriscada para gerir o tempo e manter uma margem de segurança em relação ao corte. “Consegui ganhar no início duas horas de vantagem e isso deu-me confiança. Foi muito emocionante estar neste evento, tanto à partida como à chegada. Milhares de pessoas aplaudiram e cruzar a meta foi uma explosão de sentimentos, de vitória, de superação e também de pensar: ‘nunca mais cá me apanham’”, partilhou.

Apesar da conquista, o corpo ressentiu-se do esforço extremo: unhas negras, bolhas nos calcanhares, articulações doridas e o sobrolho rasgado ficaram como marcas físicas de uma aventura inesquecível, onde prevaleceu a resiliência e a superação pessoal.

O UTMB, que voltou este fim de semana a reunir a elite mundial do trail, liga França, Itália e Suíça num percurso que combina subidas intermináveis, descidas técnicas e trilhos de alta montanha, atravessando localidades icónicas como Courmayeur e Champex-Lac antes do regresso a Chamonix. É considerado um dos eventos desportivos mais duros do mundo, tanto pela distância como pela altimetria acumulada, exigindo preparação rigorosa e uma gestão cuidada de alimentação, hidratação e descanso.

Texto: Redação DS
Fotos: DS

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