OPINIÃO por João Palmeiro • Promotor e Divulgador Cultural

Lviv vê a cultura como a base da segurança nacional no seu caminho para se tornar Capital Europeia da Cultura 2030.

Para Yulia Khomchyn, chefe da candidatura ECoC 2030 de Lviv e diretora do Instituto de Estratégia Cultural, que coordena a candidatura desde que em outubro de 2024, Lviv apresentou a sua candidatura ao título de Capital Europeia da Cultura 2030, de entre as cidades dos países candidatos a membros da UE.

Dois meses depois, foi anunciado que a cidade tinha chegado à final. Até setembro deste ano, a equipa está a trabalhar na versão final da candidatura para representar Lviv com dignidade na fase final de seleção. A candidatura de Lviv, moldada durante a guerra em grande escala, é construída em torno do conceito de “Responsabilidade de Ser”.

Lviv é a primeira cidade ucraniana a participar nesta competição da União Europeia, explorando por que, durante a guerra, a cultura se tornou não apenas um espaço de criação, mas também um espaço de responsabilidade – e quais significados mais profundos que estão dentro do conceito de Lviv.

Para Lviv, a cultura não é mais apenas um espaço para a criatividade, mas também uma ferramenta para resiliência, cura, lembrança e segurança nacional. A equipe por trás da candidatura ECoC 2030 da cidade vê os processos culturais como extremamente importantes para a segurança do país: eles reúnem as pessoas, ajudam a processar traumas coletivos e oferecem esperança onde a guerra tenta destruí-lo. 

Na Ucrânia de hoje, a cultura tornou-se uma forma de suportar a guerra: falar sobre dor e perda, enfrentar traumas e testemunhar. Não se trata mais apenas de crescimento pacífico, mas de sobrevivência. Mesmo lutando e se voluntariando, os artistas ucranianos continuam criando – e seu trabalho emerge de uma realidade completamente transformada. Esta criatividade ajuda a preservar a humanidade nas condições mais duras e desumanas.

A iniciativa Capital Europeia da Cultura foi criada desde o início para demonstrar o poder transformador da cultura nas cidades e sociedades. Mas a experiência de Lviv traz um significado especial, a cultura como fundamento da resiliência nacional em tempos de guerra. O conceito de “Responsabilidade de Ser” nasceu da perda, da migração forçada, da quebra de laços e, ao mesmo tempo, da solidariedade e da dignidade. É uma conversa não só sobre o que criamos, mas também sobre o que permitimos ou recusamos deixar acontecer.

“Responsibility to Be convida a um diálogo global sobre a cultura entendida como responsabilidade – não só pelo que trazemos ao mundo, mas também pelo que escolhemos permitir ou deixar de acontecer. No fundo, fala de dignidade, empatia e de manter a nossa humanidade mesmo nos momentos mais sombrios”, diz Yuliia Khomchyn.

Na sua candidatura, Lviv propõe uma discussão sobre o papel da cultura em novas realidades — não só na Ucrânia, mas em toda a Europa. No nível conceptual, o programa da cidade é construído em torno das ideias de testemunhar, cuidar e imaginar. O aplicativo aborda temas de traumas coletivos e individuais, práticas de lembrança, diversidade de experiências, recuperação através da cultura, património, integração social, inovação, educação e inclusão.

É uma candidatura em nome de toda a Ucrânia pois em 2022, quando a Ucrânia recebeu o estatuto de candidata à UE, Lviv decidiu finalmente candidatar-se ao título — não apesar da guerra, mas por causa dela.

A preparação para a candidatura começou no início de 2024 e transformou-se num processo verdadeiramente coletivo. Mais de 500 pessoas contribuíram, profissionais da cultura, artistas, investigadores, voluntários, veteranos e aqueles que viveram diretamente a guerra e a perda de casa. Muitas instituições culturais das cidades da linha da frente — Kharkiv, Mariupol, Berdiansk — mudaram-se para Lviv e tornaram-se parte da nova visão da cidade.

Esta candidatura vai além de Lviv em si. É moldada por reflexões sobre outras cidades ucranianas, sua experiência coletiva de guerra e o anseio compartilhado por liberdade e segurança. A cultura é vista como uma força que pode apoiar a renovação, tanto da infraestrutura quanto do mundo interno das pessoas”, explica Yuliia Khomchyn.

Para Lviv, esta participação não se resume ao título. É uma tentativa de ter uma conversa honesta sobre o que a cultura pode significar em tempos de crise e de tecer a experiência ucraniana no contexto europeu mais amplo. E é uma experiência que a equipa acredita ser significativa para toda a Europa contemporânea.

* Haverá três capitais europeias da cultura em 2030. Uma será designada por Chipre, outra pela Bélgica e a terceira será escolhida entre Nikšić (Montenegro) e Lviv (Ucrânia). Para os três países, entrou-se na fase de shortlist e, por conseguinte, as cidades têm vindo a trabalhar afincadamente nos seus projetos culturais.

Edição e adaptação de João Palmeiro com ECOCNews/Serafino Paternoster

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