Recentemente, a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF) entregou ao Parlamento e ao Governo o “Relatório de Atividades do Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais (SGIFR) 2024”.

Este é “um documento que traça o retrato mais completo sobre os incêndios rurais em Portugal”, referiu a AGIF, explicando que “os dados mostram que, embora o número total de incêndios tenha sido o mais baixo desde que há registo, o Alentejo, com vastas áreas agrícolas, tem registado padrões específicos de risco, que exigem soluções integradas e adaptadas ao território”.

Em entrevista ao Diário do Sul, a coordenadora regional da AGIF para a região LVT e Alentejo, Helga Soares, abordou os principais dados nacionais, destacando também as especificidades do território alentejano.

“O relatório de 2024 confirma avanços significativos na redução de ignições e profissionalização do SGIFR, mas alerta para riscos reais, como a concentração de grandes incêndios em poucos dias críticos, o peso do incendiarismo e a dificuldade na execução de medidas estruturais”, adiantou esta responsável.

Um dos pontos realçados foi “a redução do número de ignições”, indicando que “o ano de 2024 registou o menor número de incêndios desde que há registo, ou seja, apenas 6 255 ocorrências (menos 17% que em 2023 e 63% abaixo da média de 2001–2017)”.

De acordo com Helga Soares, “houve um investimento recorde na prevenção, que totalizou 638 milhões de euros”, especificando que “trata-se do valor mais alto desde 2018”.

Por outro lado, adiantou que, “apesar da redução do número de ignições, a área ardida foi de 137 651 hectares em 2024 (quatro vezes maior do que em 2023), tendo os incêndios causado prejuízos estimados de 67 milhões de euros na floresta”.

A par disso, a coordenadora regional da AGIF focou que “41% dos incêndios foram causados por uso indevido do fogo e 42% por incendiarismo, tendo-se registado 16 vítimas mortais (entre operacionais e civis)”.

Relativamente ao Alentejo, revelou que “teve um desempenho bastante positivo em ocorrências e área ardida e registou apenas dez por cento das ocorrências de incêndios no país e dois por cento da área ardida”.

Acrescentou ainda que “a região terminou o ano de 2024 com 2 340 hectares ardidos (a media anual de 2018-2023 foi de 4 267 ha, ou seja, uma redução de 45%) e com 606 ocorrências”.

Segundo Helga Soares, “apesar do bom desempenho global, o relatório evidencia que, em 2024, as causas acidentais estiveram na origem de 48% da área total ardida na região do Alentejo”.

Reforçou ainda que “se predominam as causas acidentais (em 2024, 33% das ignições tiveram causa acidental), tal é indicativo de que persistem comportamentos de risco, sobretudo relacionados com queimas e queimadas mal controladas ou atividades agrícolas ou florestais com uso de maquinaria em períodos de risco”.

A mesma responsável reiterou que “estas ações, mesmo sem intenção criminosa, têm um elevado potencial de gerar ignições, sobretudo em contextos de vegetação seca”, constatando que “40% das ignições ocorreram em dias de elevado perigo meteorológico, o que indica uma vulnerabilidade latente, caso não sejam reforçadas a gestão da vegetação e a sensibilização comunitária”.

Para Helga Soares, “os principais desafios do Alentejo, no contexto dos incêndios rurais e da gestão do território, estão ligados à sua geografia, clima, dimensão da propriedade e recursos operacionais”, assinalando ainda “a baixa densidade populacional e vastas áreas de vegetação contínua, o que favorece o desenvolvimento de incêndios de grande dimensão”.

Deu ainda conta de que “muitos terrenos rurais encontram-se abandonados ou subaproveitados, com reduzida gestão de combustíveis”, frisando que “a propriedade fragmentada, aliada ao envelhecimento da população rural, dificulta a mobilização dos proprietários para ações de prevenção”.

Entre outros desafios, evidenciou também que “a falta de valorização económica da floresta e da agricultura extensiva desincentiva o investimento em silvicultura e ordenamento”, sustentando que “a região é fortemente vulnerável às alterações climáticas, com verões cada vez mais longos, quentes e secos, e maior propensão para ventos e fenómenos meteorológicos extremos”.

A mesma coordenadora avançou ainda que “o Alentejo tem vindo a implementar um conjunto de medidas preventivas no âmbito do SGIFR, em linha com a estratégia nacional, mas adaptadas às especificidades da região”.

Exemplificou com “a gestão de vegetação e silvicultura preventiva; a implementação do programa ‘Aldeia Segura, Pessoas Seguras’; o Programa de Reordenamento e Gestão da Paisagem da Serra de São Mamede e Terras de Nisa; diversas ações de sensibilização e capacitação das comunidades; reforço da capacitação e qualificação dos operacionais; aprovação dos instrumentos de planeamento regionais e sub-regionais; ou desenvolvimento de Planos Intermunicipais de Adaptação às Alterações Climáticas”.

Nesta entrevista, Helga Soares deixou também alguns alertas, nomeadamente que “estamos atualmente em plena época crítica para os incêndios rurais pelo que importa reforçar a prevenção e evitar comportamentos de risco”.

Nesse sentido, disse que “é fundamental que cada cidadão compreenda o seu papel na prevenção dos incêndios rurais, adotando comportamentos seguros e conscientes, sobretudo nos dias de maior perigo”.

De forma mais geral, a mesma responsável recomendou que “não se use fogo nem maquinaria nos dias mais críticos; não se mantenham materiais facilmente inflamáveis, como pilhas de madeira ou bilhas de gás, encostados às habitações; e que se conheçam os locais de abrigo ou refúgio mais próximos”, lembrando ainda que, “se vir fumo ou fogo, comunique de forma calma e clara através do 112 e mantenha-se em segurança”.

Texto: Redação DS / Marina Pardal
Fotos: AGIF

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