A Universidade de Évora está a promover, entre 20 e 22 de julho, o Seminário Internacional “Violência, Vulnerabilidade e Dignidade Humana: Desafios Transversais da Atualidade”, uma iniciativa que reúne investigadores nacionais e internacionais, profissionais de instituições de intervenção social e estudantes para refletir sobre um fenómeno cada vez mais complexo e identificar estratégias de resposta assentes na cooperação entre a academia e a sociedade.
Na abertura do encontro, a coordenadora do Seminário, Maria Saudade Baltazar, professora do Departamento de Sociologia e Turismo, destacou que o principal objetivo da iniciativa passa por transformar o conhecimento científico em impacto social, através de uma abordagem interdisciplinar e em estreita articulação com as entidades que trabalham diariamente com populações vulneráveis.
“O grande objetivo é produzir conhecimento, mas um conhecimento que tenha impacto efetivo na realidade. Não se trata apenas de uma transferência da universidade para a comunidade; queremos também trazer a comunidade para dentro da universidade, aprender com as suas práticas, compreender os seus desafios e, em conjunto, identificar estratégias de intervenção que promovam uma sociedade mais inclusiva e a dignidade humana”, afirmou em declarações à margem do Seminário.
Este é o segundo Seminário Internacional dedicado à temática, depois da primeira edição realizada em 2017. À semelhança do encontro anterior, a organização resulta de uma parceria entre a Escola de Ciências Sociais e a Escola de Artes da Universidade de Évora, envolvendo diferentes áreas científicas, como a Sociologia, a Filosofia e as Artes, e contando com a colaboração da Associação Ser Mulher e de outras entidades que intervêm diretamente no terreno.
Segundo a Professora da UÉ, esta articulação permite reforçar uma das missões fundamentais da universidade: “Acreditamos que só desta forma conseguimos fazer a melhor articulação entre investigação, docência e extensão universitária. Ao aproximarmos os estudantes e futuros profissionais das entidades que atuam no terreno, contribuímos para uma formação mais sólida e mais próxima da realidade.”

O Seminário assume igualmente uma forte dimensão internacional, reunindo especialistas de Portugal, Espanha e Brasil, numa lógica de partilha de conhecimento e de comparação de diferentes contextos de intervenção.
“Queremos perceber como estas questões estão a ser trabalhadas noutros países. Há especificidades próprias de cada realidade, mas também desafios comuns que nos obrigam a aprender continuamente e a partilhar experiências”, sublinhou Maria Saudade Baltazar.
Durante os três dias de trabalhos são debatidas diversas formas de violência — física, estrutural, cultural e digital —, numa altura em que, apesar da crescente consciencialização social, o fenómeno continua a revelar uma dimensão preocupante.
“Há hoje mais consciência e isso traduz-se num maior número de denúncias. No entanto, sabemos que os números continuam aquém da realidade. Existem muitas formas de violência que permanecem invisíveis e as transformações digitais vieram potenciar novos desafios que exigem respostas cada vez mais articuladas”, alertou a Professora da UÉ.
A responsável recordou ainda que a pandemia de COVID-19 evidenciou situações de violência anteriormente ocultas, reforçando a necessidade de aprofundar o conhecimento científico e de promover espaços de reflexão conjunta entre investigadores, profissionais e decisores. “O fenómeno da violência é extremamente complexo. Quanto mais estudamos e mais conhecemos esta realidade, mais percebemos que estamos longe de encontrar respostas definitivas. É precisamente por isso que iniciativas como esta são fundamentais”, afiançou.
À semelhança da edição anterior, o Seminário Internacional “Violência, Vulnerabilidade e Dignidade Humana – Desafios transversais da atualidade” deixará um legado científico. Os contributos apresentados ao longo dos três dias serão reunidos numa publicação coletiva, que contará também com textos de especialistas convidados que, apesar de não participarem presencialmente, aceitaram colaborar na obra. “Esperamos que este livro possa constituir um instrumento de trabalho para investigadores e profissionais de diferentes áreas, reunindo conhecimento atualizado sobre um fenómeno que exige uma aprendizagem permanente e um esforço coletivo de intervenção”, concluiu Maria Saudade Baltazar.

A violência doméstica mantém-se o crime mais participado em Portugal
Dalila Cerejo, do Observatório Nacional da Violência/CICS.NOVA – Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais/UNLisboa, apresentou a conferência “Mapeamento da Violência: Tendências, Indicadores e Desafios Atuais”, tendo feito uma evolução do conhecimento sociológico produzido em Portugal sobre a violência de género, a partir dos dados dos inquéritos nacionais realizados pelo Observatório Nacional de Violência e Género desde 1995.
Na comunicação, a investigadora evidenciou o contributo da produção regular de conhecimento empírico para a visibilização do fenómeno, para a sua inscrição na agenda pública e para a fundamentação de políticas de prevenção e combate à violência de género.
Dos vários dados apresentados, destaca-se que “a violência doméstica mantém-se o crime mais participado em Portugal”. De acordo com os dados administrativos das participações de violência doméstica (RASI, 2019-2025), registaram-se 29 644 participações em 2025, tendo-se verificado pelo terceiro ano consecutivo uma descida ligeira, mas mantém-se um patamar estrutural de 30 mil participações por ano.

Segundo os dados do RASI 2025, apresentados por Dalila Cerejo no Seminário, houve 44 571 vítimas registadas em 2025, sendo 69% mulheres e 70,5% das vítimas têm 25 ou mais anos. Cerca de 70% dos casos ocorreram em contexto de intimidade (cônjuges, companheiros e ex-parceiros). A contraciclo da descida global, houve um acréscimo de 8,6% de participações de violência doméstica contra menores. Lisboa, Porto e Setúbal foram os distritos com maior incidência. 85,5% das denúncias respeitam a violência entre cônjuges ou companheiros. E mantém-se o mesmo padrão observado nos últimos anos: “vítimas mulheres, agressores homens”.
Em relação à face mais extrema da violência doméstica que são os homicídios, em 2025, lamentaram-se 25 vítimas mortais, das quais 21 foram mulheres, tendo sido “o valor mais alto dos últimos três anos”. No que respeita ao tipo de violência, a violência psicológica é “a mais prevalente”, revelou a investigadora, tendo acrescentado que “é um padrão consistente com todos os inquéritos anteriores da equipa”.
Dalila Cerejo apresentou como desafios: a subnotificação persistente – aproximar as vítimas do sistema, com respostas que não revitimizem; atrito judicial – só 14% dos inquéritos chegam à acusação; novas configurações da violência como a violência digital, controlo coercivo, violência no namoro e contra menores; os Grupos mais vulneráveis são as mulheres migrantes (que representam 27% das mulheres assassinadas em 2025), as pessoas idosas e as que vivem em territórios isolados.
“Um desafio transversal que nos condiciona a todos: a prevenção – que começa na educação e na formação”, apontou a investigadora. “Medimos há trinta anos. Sabemos o suficiente para agir. Precisamos de vontade política para agir!”, apelou, tendo concluído: “a violência de género não é um destino: é um fenómeno social – e o que é socialmente construído pode ser socialmente transformado. Essa transformação começa na escola e na formação de quem responde”.

Exposição sobre investigação artística “Género na Arte” integra programa do Seminário
Integrada na programação do Seminário Internacional, será inaugurada a exposição “Cabaz Digital: Arte, Género, Investigação e Ensino”, no dia 22 de julho, pelas 10h45, junto à Biblioteca do Colégio do Espírito Santo (CES), constituindo um dos resultados do projeto de investigação artística “Género na Arte”, desenvolvido no âmbito do CHAIA. A exposição reúne trabalhos de estudantes do Departamento de Artes Visuais e Design da Escola de Artes da Universidade de Évora e de escolas secundárias parceiras, nomeadamente da Escola Secundária Gabriel Pereira e da Escola Secundária de Montemor-o-Novo.
Ao longo de três dias, o programa integra ainda comunicações científicas, mesas-redondas e debates com investigadores e especialistas de reconhecido mérito provenientes de instituições nacionais e internacionais, destacando-se uma mesa-redonda dedicada aos dez anos da tutela efetiva dos direitos das vítimas de violência doméstica e uma sessão de encerramento com a apresentação das principais conclusões dos trabalhos.
A iniciativa é organizada pela Associação Ser Mulher, pelo CICS.NOVA.UÉvora, pelo CIDEHUS.UÉ e pelo CHAIA-UÉ/IN2PAST, contando com a colaboração de diversas unidades de investigação e entidades parceiras.
Fonte: Nota de Imprensa / Universidade de Évora
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