Em parceria com a Unidade de Saúde Pública (USP) do Alentejo Central, a Rádio Telefonia do Alentejo (RTA) debateu o “Acesso aos cuidados de saúde pelos trabalhadores do sexo”.
A edição de março deste programa contou com a participação da médica interna de Formação Geral, Ana Cláudia Ferreira, e das enfermeiras Rita Leão e Conceição Pimenta.
A conversa teve início com Rita Leão a explicar que “refere-se trabalhadores do sexo como uma mulher, homem ou transgénero adulto ou jovem (acima dos 18 anos) que recebe dinheiro ou bens em troca de serviços sexuais”.
Já Ana Cláudia Ferreira, destacou que, “em Portugal, se por um lado não existe legislação que proíbe o trabalho sexual, sendo apenas punido o crime de lenocínio, por outro, também não existe reconhecimento por parte do Estado ou regulamentação do trabalho sexual”.
Contudo, a médica interna referiu que “ainda é difícil abordar o tema, pois não existem dados em número suficiente ou estudos com a robustez necessária que permitam inferir sobre a realidade do trabalho sexual no nosso país”.
Segundo Conceição Pimenta, “os estereótipos e estigmas que envolvem o tema podem dificultar a procura e o acesso aos cuidados de saúde por parte destes trabalhadores, seja pela falta de competência ou inexperiência do profissional de saúde em lidar com questões que envolvem o trabalho sexual ou pelo rótulo de veículo de Infeções Sexualmente Transmissíveis (IST)”.
A mesma enfermeira frisou que “outras barreiras podem ser serviços inadequados às necessidades dos trabalhadores do sexo ou medo de serem alvo de atitudes negativas devido à sua ocupação”.
Rita Leão evidenciou ainda que “o trabalho sexual acarreta riscos relacionados com a saúde sexual e reprodutiva, problemas de saúde materna, problemas relacionado com IST – Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH), Hepatite B, Hepatite C e Hepatite A, Sífilis, Herpes”, comentando que “a infeção pelo VIH, por sua vez, confere maior risco de Tuberculose”.
A par disso, a enfermeira realçou que estes trabalhadores “podem estar sujeitos a situações de violência, tráfico humano, exploração e consumo de drogas”.
Relativamente ao Alentejo, “os trabalhadores do sexo podem contar com o apoio da Associação para o Planeamento da Família (APF) e do Centro de Aconselhamento e Deteção Precoce (CAD), no que diz respeito ao acompanhamento psicológico, ao rastreio e ao tratamento de IST, bem como no acesso a materiais informativos e preventivos, como preservativos e gel lubrificante”, especificou Ana Cláudia Ferreira.
Salientou ainda que “há também a possibilidade de agendar consultas de Planeamento Familiar com o médico de família, para esclarecimento de dúvidas ou para solicitação de métodos contracetivos e preservativos (distribuídos de forma gratuita)”.
De acordo com Conceição Pimenta, “algumas das medidas de promoção da saúde e prevenção da doença a implementar junto destes trabalhadores incluem promoção de literacia em saúde; distribuição de preservativos gratuitos; criação de programas de troca de agulhas e seringas; implementação de programas de rastreio e de tratamento de IST; verificação e atualização do boletim de vacinas; prevenção e tratamento da Tuberculose; prevenção de violência e exploração; promoção da saúde mental, da capacitação e da autoestima; e promoção de um estilo de vida saudável”.
Em jeito de resumo, Ana Cláudia Ferreira constatou que “ainda existe um longo caminho a percorrer na tentativa de conhecer a realidade portuguesa no que diz respeito ao trabalho sexual e de perceber as implicações que o mesmo tem na saúde de quem o pratica”.
Nesse sentido, adiantou que “uma das primeiras estratégias a implementar no Alentejo Central poderia ser a realização de um estudo epidemiológico, por forma a fazer o levantamento do diagnóstico de situação do nível local”.
Além disso, a médica interna apontou que “uma segunda estratégia poderia ser o desenvolvimento de projetos entre o setor da saúde e outros setores da sociedade, que visem responder de forma adequada às necessidades em saúde dos trabalhadores do sexo”.
Autor: Redação DS / Marina Pardal
Foto: DS
