Ainda o sol da manhã não ia alto e já os caminhos que conduzem a Vila Viçosa se enchiam de peregrinos. Uns partiram de Borba, outros de Bencatel, alguns tinham caminhado durante a noite. Vindos de diferentes pontos da Arquidiocese de Évora, convergiam para a Igreja dos Agostinhos, onde os esperava a Imagem Peregrina de Nossa Senhora da Conceição.

À peregrinação juntaram-se também os grupos provenientes dos concelhos de Mourão, Portel e Viana do Alentejo, os últimos territórios visitados por D. Francisco Senra Coelho no âmbito da visita pastoral. Com eles chegou a imagem peregrina da Padroeira de Portugal, que nos dias anteriores tinha permanecido no Santuário de Nossa Senhora d’Aires, em Viana do Alentejo.

Depois de transportada até à Igreja dos Agostinhos, a imagem foi colocada aos ombros de vários homens e seguiu em procissão pelas ruas de Vila Viçosa até ao Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição. Atrás dela caminhavam centenas de pessoas, numa manifestação de fé que deu início a um dos principais encontros anuais da Arquidiocese de Évora.

“À entrada de Vila Viçosa juntámo-nos todos. Veio Portel, veio Mourão, veio Viana do Alentejo e depois, numa procissão muito grande e muito participada, Nossa Senhora regressou ao seu solar, a este santuário”, recordou mais tarde o arcebispo de Évora, ao programa Ser Igreja.

A Festa da Diocese, um novo modelo desenhado pelo Departamento da Pastoral Familiar, reuniu cerca de 500 participantes, entre fiéis, sacerdotes, religiosos, movimentos, associações e serviços pastorais. Mais do que uma celebração, o encontro voltou a afirmar-se como um retrato vivo da Igreja eborense espalhada pelo Alentejo e por parte do Ribatejo.

Durante todo o dia, o recinto do santuário foi palco de momentos de oração, Adoração Eucarística, animação e convívio. No exterior, o aroma da sopa de tomate, das bifanas e do porco no espeto ajudava a criar um ambiente familiar, onde o encontro era tão importante como o programa oficial.

Mas uma das grandes novidades desta edição foi a Expo Carismas, espaço onde congregações religiosas, movimentos, comunidades e serviços diocesanos apresentaram a sua missão e o seu trabalho.

D. Francisco Senra Coelho não escondeu o entusiasmo com a iniciativa. “Só fui eu que lucrei com isso, porque conheci cada uma das realidades e tive a possibilidade de me inteirar daquilo que é a riqueza da diocese”, afirmou.

Mais do que mostrar estruturas ou atividades, a exposição permitiu revelar os rostos que diariamente mantêm viva a presença da Igreja nas comunidades locais.

“Estavam aqui muitas das pessoas que são elementos ativos e transformadores nas suas paróquias. A partir da sua fé, dão também um contributo cívico muito importante, levantando os grandes valores da fraternidade e da solidariedade”, sublinhou.

Ao longo da entrevista, o arcebispo insistiu numa das preocupações que atravessou toda a jornada: a necessidade de combater a solidão e a desumanização.

“Uma das coisas que pode acontecer é a desumanização. O desinteresse e a indiferença geram uma coisa horrível que tem a ver com a morte interior da pessoa humana, que é a solidão”, alertou.

Por isso valorizou o trabalho silencioso de tantos voluntários que acompanham idosos, pessoas com deficiência, doentes, pessoas em luto ou fragilizadas por problemas de saúde mental. “Dar tempo às pessoas fragilizadas é uma missão que diz muito da qualidade humana de uma comunidade”, referiu.

A própria coincidência da festa com a campanha do Banco Alimentar Contra a Fome reforçou essa dimensão solidária. Muitos agrupamentos de escuteiros da Arquidiocese estiveram envolvidos na recolha nacional de alimentos, enquanto no recinto da festa também foram recolhidos bens destinados à mesma causa. “Ora estas pessoas que fazem a solidariedade acontecer estiveram aqui num dia muito bonito. Tivemos a preocupação de não quebrar a corrente da solidariedade”, explicou.

A Eucaristia da tarde constituiu o ponto alto da jornada. O Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição encheu-se para a celebração presidida por D. Francisco Senra Coelho, durante a qual foram homenageados os casais que assinalam 25, 50 e 60 anos de matrimónio.

Numa sociedade onde os compromissos parecem cada vez mais frágeis, o arcebispo apresentou estes casais como testemunhos de esperança.

“São uma referência para todos nós. Mostram como se ultrapassam as dificuldades, como se vence dando a mão, como é possível dar a vida pelos filhos”, afirmou.

E acrescentou: “Um casal que vive cinquenta anos de vida matrimonial é um grande testemunho para toda a Igreja. Ensina-nos a perdoar, a esperar, a recomeçar e a voltar a acreditar na pessoa.”

A Igreja é chamada a ser no mundo este sinal de comunhão”

Na homilia, celebrada na solenidade da Santíssima Trindade, D. Francisco aprofundou uma reflexão sobre a identidade de Deus como comunhão e amor. Num dos momentos mais marcantes da sua pregação, rejeitou a imagem de um Deus distante e castigador.

“Para esse Deus que esmaga, que persegue e que diminui o ser humano, também eu seria ateu”, afirmou, provocando a atenção da assembleia.

Em contraste, apresentou o Deus revelado por Jesus Cristo como um Deus próximo, misericordioso e compassivo, que caminha ao lado das pessoas e não as abandona nas suas fragilidades. “Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele”, recordou.

Ao olhar para a realidade contemporânea, o arcebispo identificou a solidão como uma das grandes feridas do nosso tempo. “Nunca talvez como hoje se vivesse tanta solidão. Estamos ligados uns aos outros de modo digital, mas talvez nunca como hoje o nosso coração estivesse tão só”, observou.

Referindo-se aos idosos, aos migrantes, aos reclusos e a tantas pessoas isoladas, insistiu que a Igreja tem a missão de construir pontes, fortalecer relações e promover a cultura do encontro. “A Igreja é chamada a ser no mundo este sinal de comunhão”, afirmou.

A mesma ideia foi retomada quando se dirigiu aos casais homenageados, que descreveu como “ícones do amor de Deus” e exemplos daquilo que a Igreja deve ser: “uma família de famílias”.

Já no final da jornada, o Prelado deixou uma mensagem dirigida a todos os fiéis da Arquidiocese. Numa reflexão marcada pelo contexto internacional de conflitos, violência e crescente isolamento humano, apontou para Cristo como resposta à inquietação de tantas pessoas. “O mundo está carente, o mundo está pobre, o mundo procura e não encontra”, afirmou.

E concluiu com um apelo à esperança: “É sempre tempo. Nunca é tarde. É tempo de acolher Jesus na vida, com a sua palavra, com os seus valores e com o seu modo de amar.”

A meio da tarde os peregrinos começaram a regressar às suas terras. A alegria era notória, apesar do intenso calor que se fez sentir durante toda a jornada. Ficaram para trás as tendas, os cânticos e o bulício da festa. As vozes que se ouviam eram de alegria: “Foi tão bonita a festa!” ou “Valeu a pena vir. Estou cansado, mas feliz”. No balanço final, ficou também a imagem de uma Igreja reunida em torno da sua Padroeira, redescobrindo, por um dia, aquilo que mais foi sublinhado ao longo da jornada: a necessidade de caminhar juntos, de cuidar uns dos outros e de não deixar ninguém para trás.

Fonte: Nota de Imprensa / Arquidiocese de Évora (Rosário Silva)
Fotos oficiais do emissário

Veja também

GNR alerta para a segurança dos mais jovens na estrada e na água

A Guarda Nacional Republicana (GNR) reforça o seu compromisso com a proteção e salvaguarda…