Gentes da região não abandonam costume antigo, apesar de ter menos adeptos. Ficam os ditados populares e os fazeres, de tempos antigos, mas que se repetem de boca em boca.

“Ruim é a vinha que não deixa rabisco.”

Não se perdem na longevidade dos tempos, dizeres e costumes, porque o povo não os abandona. Por mais que passem os anos pelos habitantes deste interior alentejano, cada vez mais desertificado, perduram ainda fazeres e dizeres, transmitidos de avós a netos e que constituem a génese da autenticidade destas gentes locais – contribuindo alguns deles, outrora e hoje, como até único sustento de famílias inteiras. Por estes dias, ainda a necessidade não será tanta, como a ultrapassada há décadas atrás, mesmo com a sombra da conjuntura económica que atravessamos a atordoar-nos. O facto é que o ato de ir ‘rabiscar em seara alheia‘ – um dito cá da terra – torna-se cada vez mais atual, a continuar este cenário sistemático inflacionista. Ao rabisco não está associada nenhuma conotação de prática de um ato de furto, mas sim de dar aproveitamento ao que é excedente das culturas e que os proprietários não perdem tempo a recolher, dada a quantidade produzida. Com este ato, as famílias da região recordam o antigo costume e pretendem conter gastos (como versa também outro provérbio popular: “há que bem dissimular, para bem governar“) – em casos onde a necessidade impera e, onde não abunda o dinheiro, para a aquisição de alguns bens.

“Azeite, dai-mo à ceia e tirai-mo à candeia.”

De quando em vez, vêm-se deambulando por estes campos (cada vez menos cultivados) do Alentejo, homens, mulheres e até crianças de várias idades; em grupo ou isoladamente, procuram de olhos postos no chão, mas também no alto, o que lhe irá garantir subsistência e alento, conforme a época e a estação do ano que estiver a ocorrer. É mais vulgar ver estes movimentos, próximo de áreas consideráveis de plantio, onde após a passagem das máquinas de colheita mecânica do produto ali criado, ficam depositadas no solo, por grandes extensões de terreno as chamadas ‘sobras da apanha’, quer por incapacidade do processo de recolha das mesmas – devendo-se tal fato ao calibre, à forma ou ao estado de maturação do artigo. E, no caso desta recolha ser efetuada ainda nos moldes manuais e tradicionais – o mais usual, em parcelas de terra plantadas de menor extensão – há sempre proprietário, funcionário ou contratado, que deixa para traz uma linha ou outra do rego a ‘varrer’, que é como quem diz “ficou esquecida para o bicho – há-de saciar a fome a uns e engodar a barriga a outros”, que com tal se tira proveito desses excedentes.

“Com melão, vinho bom. – Com melancia, água fria.”


Tal prática não se traduz no erguer de contradições, pois resulta(va) de um consentimento que se tornou social e subjacente nos meios rurais, de tal forma que se afirmou como uma norma pacata, fruto da concórdia de todos. Deste costume tira(ra)m partido famílias necessitadas e não só, pois torna-se evidente que à prática comum não está implícita num gesto de cleptomania, mas sim numa ação de elevada importância para a economia doméstica de populações rurais e próximas destas.
Apesar do dito popular, muitas vezes parafraseado na região: “quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe provêm” significar muita coisa por estas bandas, aqui neste caso concreto, o mesmo não é a razão, nem o motivo, para a prática da ida ao rabisco por parte dos alentejanos. Pois com isto, muitas vezes, obtinha-se e pelos vistos continua a obter-se, forma de se ter azeite sem gastar um único ‘tostão’, mesmo não sendo proprietário de oliveiras. Segundo este antigo costume, todo o fruto oleícola (ou não), que caísse após a época da apanha, torna(va)-se mercê de quem o pudesse recolher – ou seja, de todos!
Isto até o seu proprietário dar sinal de que essa ação já não podia ser realizada – sendo que para tal, eram vários os avisos usados ‘no antigamente’ – desde a pintura do pé da oliveira com cal-branca, até ao ‘coutar’ das mesmas árvores, colocando ramadas de outras espécies, a inviabilizar a recolha da azeitona, nos ramos mais baixos das oliveiras e, em redor do seu pé. A partir daí, estava vedado o acesso e era até mesmo proibido a recolha através de rabisco, em propriedade alheia. Já serão muito menos os praticantes deste costume, mas sazonalmente ainda se verifica o rabisco nos campos e plantações de azeitona, da uva, de cereais, da melancia, do melão, da meloa e do morango. Mas, também é comum ocorrer o dito comportamento, agora nas culturas só possíveis com a chegada da água de Alqueva, como as do tomate, do alho e da batata doce, do pimento e de brócolos.

“Trigo na eira, pão na masseira.”


Nos dias que correm, aqui no Alentejo, já só os mais idosos se recordam e assumem tais atos, que chegados aqui, permanecem na memória viva das gentes, sendo transmitidos à juventude de meia idade – e daí correm para filhos e netos – na ânsia de que estes costumes perdurem na passagem dos séculos.

  • Haverá, ainda, quem cumpra (sempre) a tradição e siga o costume!… olhe que sim.

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