Quase nove meses após o início da pandemia, o Observador Cetelem realizou um inquérito a nível europeu, com vista a medir o impacto na moral dos consumidores e nos hábitos de consumo, bem como observar como se estão a adaptar às crises sanitária, económica e social.

Realizado em parceria com a Harris Interactive, este estudo foi realizado em nove países europeus e teve como alvo 7 400 consumidores, incluindo 800 em Portugal.

Cerca de 38% dos europeus estimam que a crise de saúde pública restringiu o seu poder de compra, enquanto apenas 13% consideram que aumentou. O sentimento predominante é o de estagnação, com 49% dos consumidores a relatar que o seu poder de compra se manteve inalterado.

A situação oposta verifica-se em Portugal, onde metade dos inquiridos afirma que o seu poder de compra diminuiu, e apenas 7% estima que aumentou. Para 43%, manteve-se estável. Talvez por isto quase a totalidade de inquiridos em território nacional diz que presta mais atenção às suas despesas e que tem uma tendência maior para poupar, valores bastante acima da média europeia, onde 78% da totalidade dos inquiridos segue esta tendência.

Esta estagnação e diminuição é percetível num contexto em que os governos de muitos países tomaram medidas fortes e globais numa tentativa de conter os efeitos da crise económica e o seu impacto nas famílias, nomeadamente para proporcionar a máxima proteção do emprego e manter os rendimentos para o maior número possível de pessoas.

Nos próximos 12 meses, a propensão para poupar mais ultrapassará a propensão para aumentar a despesa. A atitude geral parece favorecer a prudência: 49% pretendem aumentar as suas poupanças enquanto 35% pretendem aumentar gastos.

A intenção de poupar é uma tendência em crescimento em quase todo o lado, enquanto a intenção de consumir está no lado oposto do espectro, embora com disparidades significativas em função do país. Estas diferenças já eram sentidas anteriormente, mas acentuaram-se com o efeito da crise. Para evitar potenciais dificuldades, os consumidores dos países mais atingidos mostram das maiores intenções de aumentar as suas poupanças: um aumento de 4 pontos no Reino Unido (61%), Bélgica (43%), e 5 pontos em Itália (45%).

Neste contexto, a intenção de comprar produtos no próximo ano também diminuiu significativamente na maioria das categorias face ao período homólogo. Uma redução do consumo que os europeus assumem estar a realizar desde o início da crise sanitária e que se estende a gastos com roupas, viagens e férias (63%). Apenas os gastos com alimentação terão aumentado, para um terço dos europeus.

Embora a crise Covid-19 tenha mudado momentaneamente as tendências de compra e de consumo, não parece, nesta fase, capaz de gerar mudanças de comportamento duradouras além das tendências já identificadas anteriormente. Uma destas tendências é o consumo local e de proximidade, apresentado pelos europeus, antes de mais nada, como uma ação a favor do meio ambiente (44%), mas também como um objetivo e um dever (20% cada).

Esta tendência, que já existia antes da crise, é vista pelos europeus como uma forma de ajudar a manter os empregos (88%), a criar novos empregos (84%), a garantir rastreabilidade de produtos (84%) e a promover produtos de qualidade (80%). Ao nível europeu, Portugal é mesmo dos países onde esta percentagem é mais elevada – com 96%, 94%, 87% e 85%, respetivamente. Destaque também para a percentagem de inquiridos que acha que esta é uma forma de garantir a independência económica do país (93%). Por outro lado, a crise não aparenta ter encorajado muitos mais consumidores a comprarem produtos biológicos (47% em termos globais, 54% em Portugal) ou bens em segunda mão (39% na Europa e em território nacional).

A crise sanitária tem contribuído igualmente para reforçar algumas práticas que levam a um menor contacto físico e incentivam as alternativas digitais. Neste domínio, em geral, os europeus acreditam que é bastante fácil adaptarem-se às compras online (72%) e ao trabalho remoto (65%). Por outro lado, o declínio no contato físico com familiares e amigos é muito difícil (53%).

Porém, os resultados do inquérito mostram que o apelo das lojas físicas continua elevado (63% na Europa) ao mesmo tempo que coabita com as tendências de compras online (60% na globalidade dos países e 67% em Portugal). Os inquiridos nacionais parecem estar alinhados, e a grande maioria defende que é fácil a adaptação às compras online (68%) e ao teletrabalho (69%) com menos contacto físico.

Já no que respeita à propensão, após a crise Covid-19, de continuar a ter compras entregues diretamente em casa esta é mais acentuada em Espanha e Portugal – 55% e 52%, respetivamente, contra 37% da média da Europa.

Fonte: Observador Cetelem / Nota de imprensa